
Há algumas semanas, João Gilberto Noll lançou seu mais novo romance, Acenos e afagos (Ed. Record, R$ 32,00), na FLIP (Festa Literária Internacional de Parati).
Não se trata de um page turner. Ler o escritor gaúcho quase sempre é penoso, vai aos poucos, é uma literatura que se arrasta monotonamente, em compassos lentos. Outros movimentos.
Uma vez vi Noll ler na TV um trecho de Lorde (2004), outro romance seu. Muito estranho. Ele dava a cadência perfeita para seu texto. Uma calma melancólica. Uma retórica estropiada. Ardente paciência.
Mas, uma exceção: A fúria do corpo (1981). O texto mais obsceno, virulento, mais santo, devastador, mais desagradável, barroco, mais chuvoso, bonito, mais ao chão do corpo que exista, talvez.
Estou começando a estudar as micronarrativas de Mínimos, múltiplos, comuns (2003), um livro singular composto de 338 narrativas que têm em média 130 palavras. Todas escritas para o jornal Folha de São Paulo entre agosto de 1998 e dezembro de 2001 e depois organizadas tematicamente em um volume de 478 páginas. Deixo aqui uma amostra:
Mucosas
Estavas em coma aquela noite. Bati na vidraça do teu quarto esperando que me acolhesses com a lareira acesa, mas te vi na cama, a cabeça meio para trás, lembrando vagamente a máscara mortuária de uma figura guarani; não parecias respirar, na certa tinhas bebido até cair, até chegar ao submundo mental, ao turismo pelos cemitérios de neurônios. Voltavas depois pra mim tão sem pistas, que perguntavas teu nome, tua procedência e tudo. Estavas em coma. Tanto, que quebrei o vidro com o punho e entrei. Sangrava minha mão. Vi que não havia o que fazer. Já tinhas certa lividez laqueada e só me restava te velar. Foi o que fiz? Não, não foi: deitei sobre o teu corpo e abandonei a língua na tua boca até clarear não só o dia, mas também a idéia de te incinerar.
(In: NOLL, João Gilberto. Mínimos, múltiplos, comuns. São Paulo: Ed. Francis, 2003, p. 464)