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Archive for June of 2008

O livro Forrest Gump

June 15, 2008
Groom

Li o romance de Winston Groom há uns dois meses e fiquei tentado a escrever sobre ele. Tinha várias idéias, referências, leituras e comentários. Acabei me atrasando e perdi algumas proposições.

Mas me ficaram algumas: 1. trata-de de um genuíno page turner (aquele tipo de livro que só se pára de ler quando acabam as páginas, infelizmente), 2. Forrest Gump é uma narrativa americanóide, que exalta a cultura e política americanas, ou não?

Bom, aí acho que devemos nos centrar em uma distinção. O livro é muito (muito mesmo!) diferente do filme. No livro, Forrest não é tão bonzinho quanto o singelo personagem interpretado por Tom Hanks. Em algumas partes é violento, não por ser incitado, mas por existir mesmo. Não é politicamente correto: fuma maconha, fala palavrões quase sempre, não é complacente. E a crítica à política americana do século XX é avassaladora, algo apenas tangenciado no filme.

Realmente, é um livro de um ex-combatente do Vietnã. Mas vai além disso, como sempre ocorre num um bom livro, e Forrest Gump o é. Então uma primeira constatação: somos guiados pelas circunstâncias, ou ainda: somos carregados por forças sociais, culturais, econômicas etc, queiramos ou não.

Como se ele dissesse em vários momentos: você está mesmo acreditando que eu sou um idiota? É uma consciência metalingüística que está longe de ser evidente no filme. O narrador do livro Forrest já nas primeiras páginas diz: “Mas eu sei alguma coisa sobre idiotas. Provavelmente é a única coisa que sei, mas li sobre eles – desde o idiota daquele cara Doch-toévski, até o bobo do Rei Lear, o idiota de Faulkner, Benjie, e até mesmo o velho Boo Radley, em To kill a mockingbird – ele era um idiota sério. No entanto, o que mais gosto é o do velho Lennie, em Ratos e homens” (GROOM, 1995, p. 10).

Bom, ele parece saber alguma coisa...

Ainda seja a grande questão de Forrest Gump, o livro e o filme: somos idiotas sempre, não importa o país poderoso ou miserável em que a gente viva.

Teríamos tanto a discutir sobre o livro... Logo logo a Globo reprisa o filme. Nesse ano, se não me engano, já foi apresentado duas vezes.

Susto na esquina

June 11, 2008
Foi com alumbramento que ontem, na esquina encostado esperando condução, risquei os olhos nessas palavras de Kafka. E ainda há outros riscos no conjunto.

“À noite”

Afundado na noite. Como alguém que às vezes baixa a cabeça para meditar, totalmente afundado na noite. Em torno as pessoas dormem. Uma pequena encenação, um inocente auto-engano de que dormem em casas, em camas firmes, sob o teto sólido, estirados ou encolhidos sobre colchões, em lençóis, sob cobertas, na realidade reuniram-se como outrora e mais tarde, em região deserta, um acampamento ao ar livre, um número incalculável de pessoas, um exército, um povo, sob o céu frio, na terra fria, estendidos onde antes estavam em pé, a testa premida sobre o braço, o rosto voltado para o chão, respirando tranqüilamente. E você vigia, é um dos vigias, descobre o mais próximo pela agitação da madeira em brasa no monte de galhos secos ao seu lado. Por que você vigia? Alguém precisa vigiar, é o que dizem. Alguém precisa estar aí.

(KAFKA, Franz. Narrativas do espólio. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)