
Li o romance de Winston Groom há uns dois meses e fiquei tentado a escrever sobre ele. Tinha várias idéias, referências, leituras e comentários. Acabei me atrasando e perdi algumas proposições.
Mas me ficaram algumas: 1. trata-de de um genuíno page turner (aquele tipo de livro que só se pára de ler quando acabam as páginas, infelizmente), 2. Forrest Gump é uma narrativa americanóide, que exalta a cultura e política americanas, ou não?
Bom, aí acho que devemos nos centrar em uma distinção. O livro é muito (muito mesmo!) diferente do filme. No livro, Forrest não é tão bonzinho quanto o singelo personagem interpretado por Tom Hanks. Em algumas partes é violento, não por ser incitado, mas por existir mesmo. Não é politicamente correto: fuma maconha, fala palavrões quase sempre, não é complacente. E a crítica à política americana do século XX é avassaladora, algo apenas tangenciado no filme.
Realmente, é um livro de um ex-combatente do Vietnã. Mas vai além disso, como sempre ocorre num um bom livro, e Forrest Gump o é. Então uma primeira constatação: somos guiados pelas circunstâncias, ou ainda: somos carregados por forças sociais, culturais, econômicas etc, queiramos ou não.
Como se ele dissesse em vários momentos: você está mesmo acreditando que eu sou um idiota? É uma consciência metalingüística que está longe de ser evidente no filme. O narrador do livro Forrest já nas primeiras páginas diz: “Mas eu sei alguma coisa sobre idiotas. Provavelmente é a única coisa que sei, mas li sobre eles – desde o idiota daquele cara Doch-toévski, até o bobo do Rei Lear, o idiota de Faulkner, Benjie, e até mesmo o velho Boo Radley, em To kill a mockingbird – ele era um idiota sério. No entanto, o que mais gosto é o do velho Lennie, em Ratos e homens” (GROOM, 1995, p. 10).
Bom, ele parece saber alguma coisa...
Ainda seja a grande questão de Forrest Gump, o livro e o filme: somos idiotas sempre, não importa o país poderoso ou miserável em que a gente viva.
Teríamos tanto a discutir sobre o livro... Logo logo a Globo reprisa o filme. Nesse ano, se não me engano, já foi apresentado duas vezes.