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Archive for May of 2008

No surprises

May 31, 2008
Claro que ao som e voz de Radiohead: www.youtube.com/watch?v=cQqbuZOPE5g

A melancolia alegre de agora beber uma cerveja no próprio quarto e olhar um pouco pra trás. As janelas emparelhadas. Cada um fuma seu cigarro olhando pra frente e logo ali, a menos de 5 metros, tem mais concreto, em outro bloco de prédio do condomínio.

Mais pra trás, minha época mais feliz, de universidade. Não havia preocupação em garantir as contas pagas para todo mês. Havia tanta festa dentro e fora dos quartos das ruas Hugo Cabral e Pará. Hoje pra mim lá não havia dúvida, eu era vivo para comer, beber, transar, ler e viajar. Essa música intimista do Radiohead era escutada mais alto, quando não se tinha muito pra esconder. Hoje ela vai baixo quando.

O improviso era outra coisa.

Aquela seriedade lúdica podia esperar um pouco mais.
As presenças de espectros agora dão um sentimento formado e garantem conforto.

Escutar alguma música do Radiohead exige. O Valentino tocaria "Life in a glasshouse" com a avenida Bandeirantes em orvalho às 06:30 am e a gente catando copo de plástico com resto de cerveja?

Parece, olhando hoje, que não há mesmo nada com que se surpreender, tirando essa vista do passado, de construir uma narrativa bem guardada de bebedeiras, muito sono (quando não tirava a cama pra se recostar), viagens, caronas, aulas assistidas. Agora não há pra quem se mostrar a nova arrumação do quarto.

Amargo Filo

May 23, 2008
Filo

Os dias de Filo são interessantes em Londrina. As pessoas tendem a ser mostrar mais modernas, tanto no vestuário (quanta gente moderninha!), quanto nos papos (quanta cabeça pensante!) e na ânsia por teatro. Uma ânsia que me parece verdadeira, mas só contemplada em duas parcas semanas de overdose teatral, em que você nem consegue deglutir e refletir bem sobre os espetáculos que vê. Pula de uma peça para outra na correria dos horários conflitantes.

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Ressurgem também no Filo pessoas que você julgava extintas. Ressurgem do esgoto, das esquinas, em bandos. Modernos, é claro.

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A imprensa londrinense, se existe tal entidade, revela-se completamente chapa-branca na cobertura do festival. Por exemplo: hoje no Jornal de Londrina apareceu um tímido comentário crítico na reportagem de Ranulfo Pedreiro: “Os ingressos do Filo começaram a ser vendidos ontem às 11 horas no Shopping Royal Plaza, e a fila formada foi grande durante todo o dia”. Mentira. Os ingressos não começaram a ser vendidos às 11 horas como disse o repórter e como prometeu a organização. Era quase uma da tarde e ainda não havia ninguém com ingressos nas mãos, talvez somente quem os recebe de cortesia: jornais, televisões, empresários e “amigos do Filo” que não estavam sentados no chão do shopping e sim nos sofás de suas casas curtindo o feriado.

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Por falar em shopping. É o lugar mais apropriado para vender os ingressos? Por que não vender na Casa de Cultura da UEL, que só na época de Filo tem uma agenda regular? Por que só cinco guichês no Royal? Por que não distribuir a venda em vários lugares (na própria Casa de Cultura, mesmo no Royal e ainda num estande na Concha Acústica? Com os lugares numerados e a possibilidade de controle eletrônico dos ingressos vendidos poderia ter uma comunicação e facilitar o acesso dos interessados aos espetáculos. A organização do Filo quis inovar com ingressos numerados, mas acabou dando um tiro pela culatra (eita lugar comum!) atrapalhando suas intenções de organizar.

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Há um ano de preparação do Filo. Um ano bem aproveitado. Quase sempre a programação é divulgada de última hora. Os responsáveis se sustentam o resto do ano com o dinheiro público e privado dos patrocinadores?

Os maravilhosos dias

May 06, 2008

Trabalham dias no céu, no azul, na pele.
É o outono, a melhor das estações.
Há calor na pele evaporando ventos que desfolham a casca do vivo.
E há outras peles subterrâneas que não se deixam arrancar.
Num improvável acesso chega o sol não mais fugaz, eterno sol de eternos céus azuis.

Uma carta ao pai

May 02, 2008
Kafka

Mês retrasado o senhor veio me visitar. Uma semana antes da Páscoa. Estava em férias, e aproveitando-as na casa de sua mãe e irmãs na região de Campinas, esticou até Londrina. Ligou: “Vou passar uns dias aí com você”. Fiquei um pouco temeroso, por dois motivos: 1. ando muito embaralhado com trabalho e estudo; 2. há algum tempo não permanecíamos sozinhos.

Foram apenas dois dias aqui em casa: sábado e domingo. Aproveitamos bem. Fomos ao Museu Histórico da cidade, onde não havia ido ainda, almoçamos naquele simpático restaurante vegetariano, passeamos no shopping olhando despreocupadamente as vitrines, pegamos um ônibus errado que rodou rodou e voltou ao ponto de partida. Era noite e chovia. Foi um bom passeio redundante. Enfim conseguimos pegar a linha certa e descemos na avenida. Depois subimos a outra avenida tentando fugir da rala chata chuva que não nos molhava, mas umedecia. Cumprimos a quadra do cemitério São Pedro sem pestanejar.

Comemos pizza. Conversamos nós três: o senhor (o pai), eu (o filho) e ela (a namorada do filho). Dormimos cansados e satisfeitos.

Na segunda-feira, quando eu me preparava pra ir trabalhar, o senhor entrou num táxi e foi pra rodoviária tomar o ônibus de volta à casa das tias e da vó.

Foi uma boa visita. Não tenho, como Kafka, que nos olha acima de duas maneiras, do que reclamar. Ele o fez em sua carta. Eu agradeço sua vinda.