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Archive for April of 2008

O ex bar da minha rua

April 27, 2008
Sexta-feira, dia 25/04/2008, fui ao Bar do Jota (rua Prof. João Candido, 1256 – Centro, perto do cemitério São Pedro e da J.K.) com alguns amigos. É o único bar que freqüento com alguma assiduidade, geralmente uma vez por semana, depois que chego do trabalho. Estávamos sentados à mesa do lado de fora e, em frente à nossa, várias mesas juntas, com uma maioria de mulheres. Duas delas estavam muito próximas, trocavam olhares de carinho, se abraçavam e, em dado momento, deram alguns beijos. Eram basicamente “selinhos”, não beijões reveladores da paixão que talvez sintam uma pela outra. Elas estavam bem no meu campo de visão.

Todo mundo sabe que mais da metade do público do Jota é composto de homo e bissexuais. A parcela hetero, pelo menos pela experiência que tenho por estar lá, não parecem se incomodar muito ao ver dois homens ou duas mulheres se beijarem. Eu confesso que acho até bonito, pois de alguma forma é um avanço as pessoas demonstrarem suas sexualidades da maneira que quiserem. E essa discussão em ser homo, hetero, bi, tri, ou o que for, é de uma tremenda chatice. Rótulos servem apenas no início do conhecimento de alguém, depois perdem o sentido com a complexidade que as pessoas tendem a mostrar.

Acontece que uma hora o garçom, um senhor que me enoja pelo seu jeito de atender e pedir centavos pra sua “caixinha” (se não me engano seu nome é Mário), chegou até as meninas e fez um gesto que interpretei como uma ordem para as duas pararem de se beijar ali. Falou de modo ríspido e repulsivo. As duas apenas pararam e olharam-no de modo submisso, como duas ovelhas.
Não acreditei no que vi e fui ao balcão falar pro João (que arrendou o bar) o que seu garçom fizera e também perguntar se tinha alguma norma que proibisse aquilo.
As respostas dele tento resumir:

“Aqui isso não é liberado”
“A maioria das mulheres que vêm aqui são assim. Mas elas são sempre bem-vindas”.
“Uma vez uma mãe reclamou que passou aqui com o filho pequeno e tinha um casal de homens se beijando”.

Ok. Pelo que sei isso é caracterizado mais como crime do que como afronta a qualquer pessoa. Pelo que sei ganhar dinheiro com as bichas e sapatonas (uso esses termos porque me acho o suficiente amigo de vários homossexuais para assim escrever) pode, mas eles demonstrarem seu afeto, não. Um casal hetero se agarrar furiosamente, com beijos e pegadas mais fortes pode... Duas mulheres se beijarem ternamente, isso não.

O que me assusta é ninguém falar nada. Tudo bem que as meninas já devem enfrentar uma barra pra de repente se assumirem e se exporem com algum argumento. Tudo bem que uma possível criação antiquada e machista do garçom e do João leva a esse tipo de repreensão.
Tudo bem PORRA NENHUMA. Cansei de engolir sapos e ficar quieto. Cansei de ver esse tipo de preconceito e ninguém falar nada. Não sou militante em causa alguma, MAS ISSO É ERRADO! Ou não?

E a noite estava propícia a exemplos de distorções. Um casal estava com seu filho recém nascido lá, chorando. Marquei a hora: 01:30 a.m. Não era esse o crime? Falei pro João: “Crime, safadeza e tudo mais é esse casal trazer uma criança para um bar nesse horário. Era isso que você devia proibir. Bar é lugar para criança?”

É muito complicado se decepcionar com alguma coisa.
Só sei que o que eu puder fazer para diminuir a clientela do Bar do Jota, eu farei. Até, triste, vou evitar ir lá, mesmo sendo perto de casa.

E que engraçado. Pesquiso na net e olha a descrição que acho:
“O Bar do Jota é um endereço tradicional no meio intelectual e universitário, embora abrigue diversas tribos da cidade. Faz todos os tipos de porções e lanches, incluindo a famosa vaca atolada, servida mesmo no período do verão. Também estão à disposição dos clientes duas mesas de sinuca.”
(http://www.planetalondrina.com.br/guia/guia.asp?Categoria=44)

“Meio intelectual”, “embora abrigue diversas tribos da cidade”... Só rindo. Esses caras são engraçados.

Gimme shelter

April 21, 2008
Na festa começam acordes de guitarra devagar devagarzinho. Olho as pessoas e elas parecem também sentir. Os acordes saem do silêncio e rodam os cômodos da casa, gelam as latas de cerveja, de vinho. Saem das fumaças dos cigarros. Flutuam no ar chuvoso. Caem no asfalto escuro da noite, empestam o ar da chuva lá na baixada perto do vale. Retornam anos de estudo na graduação universitária. Antigos amigos na lembrança, novas conversas, alguma coisa pede pra reviver. “War, children, it's just a shot away”...

No restaurante

April 20, 2008
Uma mulher senta-se à mesa do self-service. Reza antes de comer. Batata frita, torresmo, churrasco e ovo. É o que compõe sua religião. Mas morrerá antes de acabar o macarrão.

XIII

April 05, 2008
"Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou".

(Jorge de Lima, Invenção de Orfeu)