
“O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente” [...]
(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 185)
(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 185)
Acabou ontem à meia-noite o horário de verão. O estratagema começou cedo, em 14 de outubro de 2007, e se arrastou por mais de quatro meses, terminando em 16 de fevereiro de 2008. Sempre quanto acaba mais uma temporada de economia de energia (e parece haver economia mesmo, pela utilização mais larga da luz solar, isso provado por estimativas do Ministério de Minas e Energias), tenho uma sensação estranha.
Acordar e sair de casa no escuro pra trabalhar, como um bóia-fria, é chato. Ou partir feito um atento guarda de banco para um longo dia de olhar. Um sonâmbulo cobrador de ônibus. Prestativo enfermeiro. Professor. Mas também há a grata possibilidade de chegar em casa antes de escurecer; de ver o pôr-do-sol da janela; observar as últimas rajadas de sol no Cemitério São Pedro; e principalmente pesar a luz intermitente do crepúsculo das oito e meia até nove da noite, que passará a ser degustada de agora ao início do inverno cada vez mais cedo, entre seis e sete.
Em outros países há também horário de verão?
Ontem tivemos duas meias-noites e duas onze horas. Não gosto de atrasar o relógio assim que chega a zero hora. Prefiro protelar esse ato para o outro dia, no caso, para esta manhã. Neste domingo acordei cedo, por volta de nove horas. Logo me lembrei de que devia atrasar o relógio de pulso e o despertador, o algoz das manhãs de labuta. Tem também um certo prazer em verificar que algum relógio da casa ainda não foi modificado e o conforto de mudá-lo pensando: “Ganho mais uma hora agora”. O marcador do tempo no meu computador marca agora dez e vinte e sete. Pronto, são nove e vinte e sete, decretamos nós, senhores do tempo.
Senhores do tempo? Machado de Assis disse: “Nós matamos o tempo, mas ele enterra-nos”. Já Mário Quintana atordoa a todos: “O tempo é um ponto de vista dos relógios”, indicando a relação ambígua e relativa entre o objeto criado pela mão humana e algo insondável e traiçoeiro que nos escapa. Muitos poetas, prosadores, ensaístas, filósofos e pensadores também escreveram sobre esse tema, alguns até prepararam obras inteiras ou utilizaram-no como pano de fundo para motejar sobre nossa existência ínfima, como é o caso de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar.
Teria eu algo a acrescentar às belas palavras desses etéreos seres? Palavras não teria, mas com certeza uma ação, como procurar algum relógio atrasado e perdido em casa, ansioso para ser ajustado.
Acordar e sair de casa no escuro pra trabalhar, como um bóia-fria, é chato. Ou partir feito um atento guarda de banco para um longo dia de olhar. Um sonâmbulo cobrador de ônibus. Prestativo enfermeiro. Professor. Mas também há a grata possibilidade de chegar em casa antes de escurecer; de ver o pôr-do-sol da janela; observar as últimas rajadas de sol no Cemitério São Pedro; e principalmente pesar a luz intermitente do crepúsculo das oito e meia até nove da noite, que passará a ser degustada de agora ao início do inverno cada vez mais cedo, entre seis e sete.
Em outros países há também horário de verão?
Ontem tivemos duas meias-noites e duas onze horas. Não gosto de atrasar o relógio assim que chega a zero hora. Prefiro protelar esse ato para o outro dia, no caso, para esta manhã. Neste domingo acordei cedo, por volta de nove horas. Logo me lembrei de que devia atrasar o relógio de pulso e o despertador, o algoz das manhãs de labuta. Tem também um certo prazer em verificar que algum relógio da casa ainda não foi modificado e o conforto de mudá-lo pensando: “Ganho mais uma hora agora”. O marcador do tempo no meu computador marca agora dez e vinte e sete. Pronto, são nove e vinte e sete, decretamos nós, senhores do tempo.
Senhores do tempo? Machado de Assis disse: “Nós matamos o tempo, mas ele enterra-nos”. Já Mário Quintana atordoa a todos: “O tempo é um ponto de vista dos relógios”, indicando a relação ambígua e relativa entre o objeto criado pela mão humana e algo insondável e traiçoeiro que nos escapa. Muitos poetas, prosadores, ensaístas, filósofos e pensadores também escreveram sobre esse tema, alguns até prepararam obras inteiras ou utilizaram-no como pano de fundo para motejar sobre nossa existência ínfima, como é o caso de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar.
Teria eu algo a acrescentar às belas palavras desses etéreos seres? Palavras não teria, mas com certeza uma ação, como procurar algum relógio atrasado e perdido em casa, ansioso para ser ajustado.
Atrasei todos os meus antes de dormir, e me deleitei com a maravilhosa sensação de acordar cedo, sem preocupações. Não havia a paranóia de correr ao trabalho!
Bom domingo meu caro!