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Identidade

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Dias atrás fui ao Instituto de Identificação de Londrina dar entrada na carteira de identidade do Paraná. Estranhamente, se você um dia for contratado para trabalhar para este estado, não poderá apresentar RG de outra localidade. Para prevenir, resolvi me cadastrar logo e evitar prováveis complicações.

Tentei ser espertalhão e fui na quarta-feira de cinzas enfrentar uma fila menor, que não estava tão menor assim. Normalmente eles distribuem quarenta senhas diárias, a fila começa a se formar às três da manhã e o serviço começa às oito. Nesse dia seriam trinta senhas e ao meio-dia os trabalhos se iniciariam. Cheguei às nove e meia e já tinha gente esperando.

Fui prevenido. Levei o jornal do dia e um livro. Após ler o jornal, saquei o ótimo Os enigmas da culpa, do Moacyr Scliar, pequeno volume da série “Coleção Filosófica” da editora Objetiva. Nele, o escritor gaúcho esmiúça o tema da culpa. Parte da condição judaica para ampliar sua visão e falar dos vários sentidos desse sentimento/sensação/emoção: a culpa moral, a culpa no sentido religioso, a culpa iluminada pela razão, a culpa vista pela psicanálise. Também trata da culpa na literatura de ficção, a culpa e a política, além de dar uma vasta bibliografia sobre o tema. Enfim, é um livro interessantíssimo para nosso mundo tão caro a esse estigma. Raduan Nassar, em um de seus poucos livros, disse: “A culpa é um dos motores do mundo”. Um assunto realmente muito profícuo para nossa vida ocidental.

E o tempo passou rápido naquela fila kafkiana. Até tomei um solzinho, abrandado pelo vento leve da manhã. Logo deu meio-dia e as senhas começaram a ser distribuídas. Fiquei com a 18ª.
***


Peguei a senha e fui tratar de almoçar, pois até chegar minha vez iria mais uma hora no mínimo. Comi no delicioso restaurante vegetariano “Tshu Shin Yuen”, na Rua Santa Catarina. Voltei para o Instituto de Identificação.

Fiquei lá esperando o tempo passar. Só quando tocou o sinal da senha 18 e mostrou que era minha vez, lembrei que numa carteira de identidade deve-se constar a assinatura do portador. Frio na barriga. Normalmente escrevo tranqüilamente na presença de outras pessoas, dando aulas, fazendo provas, mas quando é feito diante de uma pessoa que fica em cima de você, vendo você assinar o papel, é diferente.

Tirei a foto na câmera digital, ficou meio de lado, foi tirada outra. A moça colheu todas minhas digitais também com um aparato eletrônico. Tudo é eletrônico! Isso dispensou o tempo e a sujeira no processo de cadastramento.

Quando chegou o momento de assinar foi complicado.

Assina-se hoje com uma caneta extremamente fina em cima de um papel com várias linhas carimbadas, que por sua vez fica em cima de um sensor que envia os códigos para o computador.

Não tenho assinatura, escrevo meu nome por extenso. Na primeira tentativa saiu algo bizarro, próximo à letra de uma criança. Assim foi na segunda, terceira e quarta linhas. A funcionária, já com expressão de enfado, propôs-se a fazer outro carimbo, alertando para o fato de que eu só teria mais quatro chances. Nas quatro finais minha letra ficou horrível, e acabou prevalecendo a última assinatura, um amontoado de letras desconjuntadas. Tudo muito rápido e higiênico.

Minha letra tem personalidade própria. Ela varia muito de forma durante um mesmo dia. Múltiplas personalidades? Não sei muito disso, mas sei que existem estudos a partir da grafia de uma pessoa. Como é o nome do cara que analisa letras e tira conclusões psicológicas e comportamentais a partir delas? Eu seria certamente considerado um ser sem personalidade. Serei?

Saí triste do recinto. Preponderou meu lado fraco, perdedor, vulnerável. Mais uma chance só, moça, e minha letra aparecerá aguerrida, forte e vistosa no monitor!

Mas nós devemos ser algo mais que um número, foto e assinatura em papel plastificado. Tomara que sim.

Ao sair de lá me deparei com o Sebo Capricho da Maranhão com a Mato Grosso e... alegria! Nem quinze minutos lá e encontrei tanta coisa legal: Além do bem e do mal, do Nistezsche (edição da Companhia das Letras), Dois irmãos, do Milton Hatoum, O teatro na estante, do João Roberto Faria, além de um livro da Ática sobre morfossintaxe que ando precisando. O preço de todos eles juntos não pagaria o Nietzsche novo em uma livraria.
***


No entanto, a marca da assinatura mal executada ficou pulsando.

O mais chato é que quando cheguei em casa fui escrever meu nome num papel qualquer e as letras saíram seguras, rápidas, legíveis, como tentei fazer quando foi necessário.

Aí, agora quando tenho um papel perto e uma caneta fico escrevendo meu nome e quase sempre sai da melhor maneira possível. Pena que na carteira de identidade ele permanecerá meio torto por anos e anos.

Comments

5 comments

lcmanini wrote:

Por incrível que pareça, pra pouca gente é que nós deixamos de ser estatística!

Muito bom!

Abraços
Sunday 10 February 10:50

isis wrote:

pois eu detesto essa coisa totalmente virtual que está virando o mundo. poxa tirar as digitais sem sujar os dedinhos é muito aborrecido. lembro quando tirei a primeira carteira de identidade, a mulher pegou minha mao e passou dedinho por dedinho na tinta preta do estojinho tinteiro de carimbo... foi uma lambanca. lembrei de quando pintava com aquarela e era crianca. mas em londrina, quando fui tirar a carteira de motorista, foi tudo eletronico, os dedos no visor (ou algo assim), a assinatura estranhamente tremida sem consistencia e estabiliadade que resultou do uso daquela bizarra caneta digital sem tinta. uó. e a foto digital feita na hora? torta, seca, sem beleza nenhuma, violenta, súbita: quase um estupro fotográfico. terrível. enfim...
seu post acordou minhas lembrancas.
beijoooooo
Sunday 10 February 13:45

zero wrote:

então essa funcionária que te atendeu era uma enxerida! porque a que me atendeu aqui na curitiba, em dezembro, quando fiz meu novo rg, me deu o aparato eletrônico, explicou como eu deveria assinar, virou pro lado e foi adiantando outras coisas. assinei de pronto, sem que ela me bisbilhotasse!
Sunday 10 February 20:47

beethoven wrote:

Ei, Miguel!

Comprei esse Scliar aí sobre a culpa, mas ainda não li. Que legal que você achou o Nietzsche bem barato. Também, com o seu faro pra sebo! Vai chegar o dia em que eu vou levar você num sebo bem grande e soltar você lá no meio para que encontre para mim as preciosidades. Enquanto isso, fico sentado num sofá. Se alguém perguntar porque não vou até as estantes, dou uma risadinha espertalhona e digo: "Ah, tenho um pinguim que faz todo o serviço! Um pinguim livreiro!"

Um abraço!
Tuesday 12 February 02:05

Augusto bonati [desloguilson] wrote:

Realmente, Esta Fila demora !
Wednesday 13 February 21:58

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