Num carnaval de quitinete, as ruas de Londrina praticamente desertas, um rapaz sobe o muro do cemitério São Pedro tomado pelos grafiteiros e suas imagens multicoloridas. O cemitério invade a cidade de prédios em sua inclinação. Parece não haver a continuação do muro embaixo, na João Cândido. Túmulos e domicílios empilhados se misturam naturalmente. Muitos que moram alto não miram a quadra dos ossos.
O rapaz no pôr-do-sol. A brisa roça leve sua face, seus olhos, seus cabelos compridos e desgrenhados, ondeantes ao ritmo da memória.
Essa cidade vivida durante anos. Lembranças boas e ruins.
A vida em república, os amigos agora distantes, as festas, aquela ex-namorada, aquela paixão, as noites e dias na UEL. O bar de madeira cheio de fumaça, pouca luz em seu interior, risadas, música alta, olhares, conversas animadas. A saudade da família. Aquele rapaz está sentado no muro do cemitério e tem alguma coisa atrás de suas costas. O tempo não passa ao vê-lo sentado.
Há duas entradas para esse espaço do pó.
As caminhadas noturnas, o desespero suado frio dentro do quarto do apartamento 51. O susto por ter de tomar a rédea dos seus passos.
Esse rapaz só desce do muro quando for noite, os carros voltarem a povoar céleres a grande avenida ao lado esquerdo, as luzes dos prédios se acenderem para enfrentar a negrura do céu e os túmulos ficarem no intenso breu.
Aquele rapaz está dentro e quer sair.
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(Baseado na foto do Luiz tirada dia 1º de fevereiro e publicada dia 2: http://ainda.tipos.com.br).
Abraços