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Archive for February of 2008

Tempos

February 17, 2008
sir
“O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente” [...]
(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 185)


Acabou ontem à meia-noite o horário de verão. O estratagema começou cedo, em 14 de outubro de 2007, e se arrastou por mais de quatro meses, terminando em 16 de fevereiro de 2008. Sempre quanto acaba mais uma temporada de economia de energia (e parece haver economia mesmo, pela utilização mais larga da luz solar, isso provado por estimativas do Ministério de Minas e Energias), tenho uma sensação estranha.

Acordar e sair de casa no escuro pra trabalhar, como um bóia-fria, é chato. Ou partir feito um atento guarda de banco para um longo dia de olhar. Um sonâmbulo cobrador de ônibus. Prestativo enfermeiro. Professor. Mas também há a grata possibilidade de chegar em casa antes de escurecer; de ver o pôr-do-sol da janela; observar as últimas rajadas de sol no Cemitério São Pedro; e principalmente pesar a luz intermitente do crepúsculo das oito e meia até nove da noite, que passará a ser degustada de agora ao início do inverno cada vez mais cedo, entre seis e sete.

Em outros países há também horário de verão?

Ontem tivemos duas meias-noites e duas onze horas. Não gosto de atrasar o relógio assim que chega a zero hora. Prefiro protelar esse ato para o outro dia, no caso, para esta manhã. Neste domingo acordei cedo, por volta de nove horas. Logo me lembrei de que devia atrasar o relógio de pulso e o despertador, o algoz das manhãs de labuta. Tem também um certo prazer em verificar que algum relógio da casa ainda não foi modificado e o conforto de mudá-lo pensando: “Ganho mais uma hora agora”. O marcador do tempo no meu computador marca agora dez e vinte e sete. Pronto, são nove e vinte e sete, decretamos nós, senhores do tempo.

Senhores do tempo? Machado de Assis disse: “Nós matamos o tempo, mas ele enterra-nos”. Já Mário Quintana atordoa a todos: “O tempo é um ponto de vista dos relógios”, indicando a relação ambígua e relativa entre o objeto criado pela mão humana e algo insondável e traiçoeiro que nos escapa. Muitos poetas, prosadores, ensaístas, filósofos e pensadores também escreveram sobre esse tema, alguns até prepararam obras inteiras ou utilizaram-no como pano de fundo para motejar sobre nossa existência ínfima, como é o caso de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar.

Teria eu algo a acrescentar às belas palavras desses etéreos seres? Palavras não teria, mas com certeza uma ação, como procurar algum relógio atrasado e perdido em casa, ansioso para ser ajustado.

Identidade

February 10, 2008
id


Dias atrás fui ao Instituto de Identificação de Londrina dar entrada na carteira de identidade do Paraná. Estranhamente, se você um dia for contratado para trabalhar para este estado, não poderá apresentar RG de outra localidade. Para prevenir, resolvi me cadastrar logo e evitar prováveis complicações.

Tentei ser espertalhão e fui na quarta-feira de cinzas enfrentar uma fila menor, que não estava tão menor assim. Normalmente eles distribuem quarenta senhas diárias, a fila começa a se formar às três da manhã e o serviço começa às oito. Nesse dia seriam trinta senhas e ao meio-dia os trabalhos se iniciariam. Cheguei às nove e meia e já tinha gente esperando.

Fui prevenido. Levei o jornal do dia e um livro. Após ler o jornal, saquei o ótimo Os enigmas da culpa, do Moacyr Scliar, pequeno volume da série “Coleção Filosófica” da editora Objetiva. Nele, o escritor gaúcho esmiúça o tema da culpa. Parte da condição judaica para ampliar sua visão e falar dos vários sentidos desse sentimento/sensação/emoção: a culpa moral, a culpa no sentido religioso, a culpa iluminada pela razão, a culpa vista pela psicanálise. Também trata da culpa na literatura de ficção, a culpa e a política, além de dar uma vasta bibliografia sobre o tema. Enfim, é um livro interessantíssimo para nosso mundo tão caro a esse estigma. Raduan Nassar, em um de seus poucos livros, disse: “A culpa é um dos motores do mundo”. Um assunto realmente muito profícuo para nossa vida ocidental.

E o tempo passou rápido naquela fila kafkiana. Até tomei um solzinho, abrandado pelo vento leve da manhã. Logo deu meio-dia e as senhas começaram a ser distribuídas. Fiquei com a 18ª.
***


Peguei a senha e fui tratar de almoçar, pois até chegar minha vez iria mais uma hora no mínimo. Comi no delicioso restaurante vegetariano “Tshu Shin Yuen”, na Rua Santa Catarina. Voltei para o Instituto de Identificação.

Fiquei lá esperando o tempo passar. Só quando tocou o sinal da senha 18 e mostrou que era minha vez, lembrei que numa carteira de identidade deve-se constar a assinatura do portador. Frio na barriga. Normalmente escrevo tranqüilamente na presença de outras pessoas, dando aulas, fazendo provas, mas quando é feito diante de uma pessoa que fica em cima de você, vendo você assinar o papel, é diferente.

Tirei a foto na câmera digital, ficou meio de lado, foi tirada outra. A moça colheu todas minhas digitais também com um aparato eletrônico. Tudo é eletrônico! Isso dispensou o tempo e a sujeira no processo de cadastramento.

Quando chegou o momento de assinar foi complicado.

Assina-se hoje com uma caneta extremamente fina em cima de um papel com várias linhas carimbadas, que por sua vez fica em cima de um sensor que envia os códigos para o computador.

Não tenho assinatura, escrevo meu nome por extenso. Na primeira tentativa saiu algo bizarro, próximo à letra de uma criança. Assim foi na segunda, terceira e quarta linhas. A funcionária, já com expressão de enfado, propôs-se a fazer outro carimbo, alertando para o fato de que eu só teria mais quatro chances. Nas quatro finais minha letra ficou horrível, e acabou prevalecendo a última assinatura, um amontoado de letras desconjuntadas. Tudo muito rápido e higiênico.

Minha letra tem personalidade própria. Ela varia muito de forma durante um mesmo dia. Múltiplas personalidades? Não sei muito disso, mas sei que existem estudos a partir da grafia de uma pessoa. Como é o nome do cara que analisa letras e tira conclusões psicológicas e comportamentais a partir delas? Eu seria certamente considerado um ser sem personalidade. Serei?

Saí triste do recinto. Preponderou meu lado fraco, perdedor, vulnerável. Mais uma chance só, moça, e minha letra aparecerá aguerrida, forte e vistosa no monitor!

Mas nós devemos ser algo mais que um número, foto e assinatura em papel plastificado. Tomara que sim.

Ao sair de lá me deparei com o Sebo Capricho da Maranhão com a Mato Grosso e... alegria! Nem quinze minutos lá e encontrei tanta coisa legal: Além do bem e do mal, do Nistezsche (edição da Companhia das Letras), Dois irmãos, do Milton Hatoum, O teatro na estante, do João Roberto Faria, além de um livro da Ática sobre morfossintaxe que ando precisando. O preço de todos eles juntos não pagaria o Nietzsche novo em uma livraria.
***


No entanto, a marca da assinatura mal executada ficou pulsando.

O mais chato é que quando cheguei em casa fui escrever meu nome num papel qualquer e as letras saíram seguras, rápidas, legíveis, como tentei fazer quando foi necessário.

Aí, agora quando tenho um papel perto e uma caneta fico escrevendo meu nome e quase sempre sai da melhor maneira possível. Pena que na carteira de identidade ele permanecerá meio torto por anos e anos.

Os benefícios do Dorflex®

February 05, 2008
Dorflex

Sempre fui fraco pra bebida. Dependendo do dia, uma cerveja já me deixa num estado alucinado. Tiro um pouco de sarro com aquela piada para justificar meus excessos, que estão se tornando cada vez mais raros: “Eu bebo pouco. Mas o pouco que eu bebo me transforma em outra e pessoa e essa outra pessoa bebe pra caramba”.

Já exagerei muito. Várias vezes. Nas esquinas, nos botecos; algumas poucas vezes em boates, em minha casa; na casa dos outros, em festas; em postos de gasolina, em restaurantes; em quase todo lugar. Tive até alguns problemas, o que me fez várias vezes pensar em parar definitivamente de beber pelo remorso inevitável. Mas como disse um bigodudo alemão, “A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez”.

Contudo, a graça foi acabando. As leves e breves ressacas de antes se transformaram em pesadas e longas dores de cabeça, uma horrível sensação de morte e vertigem constantes. Seguramente a idade e o tempo ativo de copo e garrafa contribuíram para os efeitos colaterais acentuados.

Hoje me contento em aprender a beber, controlando para não deslanchar noite adentro com infindáveis cervejas. Antes de chegar à primeira dezena, contada individualmente, prefiro parar para evitar as conseqüências físicas e psicológicas do dia seguinte.

Mas quando aparece algum daqueles sintomas, nada como um Dorflex.

A ação do Dorflex, em mim, é quase que instantânea. Pego como exemplo a última ingestão de um comprimido, há uns cinco dias.

Tinha bebido algumas cervejas no Bar do Jota. Não muitas, e acho que engoli uma pururuca junto para forrar o estômago com gordura suficiente para despistar o efeito nocivo do álcool. Às sete da manhã do outro dia levantei para mijar e senti a cabeça meio pesada, uma leve pontada nos lados. Não houve dúvida: um Dorflex de prontidão e a cabeça entre as mãos ao sentar-me no vaso (sim, mijo sentado na maioria das vezes em minha casa, principalmente quando estou quase dormindo). Ao voltar para o colchão, o efeito do misterioso citrato de orfenadrina já começara a ser sentido, pois esse relaxante muscular é rápido e certeiro, potencializado pela presença maciça da dipirona sódica e da cafeína anidra no comprimidinho branco.

Deitado, é fechar os olhos e sentir a cabeça sendo tratada com luvas de pelica, relaxar as pernas, o tórax, o pescoço, afagar o travesseiro e largar-se num sono merecido. Quando se acorda, ainda dá pra sentir os benefícios do Dorflex sendo encerrados com um leve aceno de “Se precisar de novo, estou aqui na cômoda. Obrigado!”. Obrigado digo eu e minha massa encefálica restabelecidos.

Há centenas de outros paliativos para amainar a caveira quebrada no outro dia depois da noitada. Tylenol, Neosaldina, ASS, Alivium, a lendária Aspirina etc. etc. etc. Eles se dividem, grosso modo, em duas grandes famílias: os com o princípio ativo paracetamol e os com o princípio ativo dipirona. Hoje podemos comprar os genéricos. Entramos na farmácia e gememos: “Um paracetamol, por favor”, ou “Uma dipirona sódica, por obséquio”. Ah, a Aspirina não contém nenhum desses, e sim Ácido Acetilsalicílico. Daí a ardência ocasional no estômago quando algumas pessoas tomam esse medicamento.

Eu sou partidário da dipirona. É aquela fidelidade como a uma marca de cerveja que rejeitamos e asseguramos que, se bebê-la, a dor de cabeça será certeira. Em matéria da loira sou partidário da Antarctica. A genérica e também seu supra-sumo, a Original. Mas isso é um outro papo.

*
Sugestão de leitura: o ótimo conto do escritor e jornalista gaúcho Luís Dill, intitulado "Paracetamol". Disponível em http://www.releituras.com/ldill_menu.asp.

Muros

February 04, 2008

Num carnaval de quitinete, as ruas de Londrina praticamente desertas, um rapaz sobe o muro do cemitério São Pedro tomado pelos grafiteiros e suas imagens multicoloridas. O cemitério invade a cidade de prédios em sua inclinação. Parece não haver a continuação do muro embaixo, na João Cândido. Túmulos e domicílios empilhados se misturam naturalmente. Muitos que moram alto não miram a quadra dos ossos.
O rapaz no pôr-do-sol. A brisa roça leve sua face, seus olhos, seus cabelos compridos e desgrenhados, ondeantes ao ritmo da memória.
Essa cidade vivida durante anos. Lembranças boas e ruins.
A vida em república, os amigos agora distantes, as festas, aquela ex-namorada, aquela paixão, as noites e dias na UEL. O bar de madeira cheio de fumaça, pouca luz em seu interior, risadas, música alta, olhares, conversas animadas. A saudade da família. Aquele rapaz está sentado no muro do cemitério e tem alguma coisa atrás de suas costas. O tempo não passa ao vê-lo sentado.
Há duas entradas para esse espaço do pó.
As caminhadas noturnas, o desespero suado frio dentro do quarto do apartamento 51. O susto por ter de tomar a rédea dos seus passos.
Esse rapaz só desce do muro quando for noite, os carros voltarem a povoar céleres a grande avenida ao lado esquerdo, as luzes dos prédios se acenderem para enfrentar a negrura do céu e os túmulos ficarem no intenso breu.
Aquele rapaz está dentro e quer sair.
*

(Baseado na foto do Luiz tirada dia 1º de fevereiro e publicada dia 2: http://ainda.tipos.com.br).

Profundamente

February 01, 2008
Bandeira
Ler o post da Margo (http://james.tipos.com.br) de 31/01/2008 me encheu de sentimento. Escrever sobre idas e vindas, encontros e despedidas, desencontros e chegadas é sempre uma maneira de tentarmos nos compreender e compreender os outros também. Por falta de saber o que dizer agora pra expressar eu mesmo esse vazio, recorro a um poeta brasileiro que, na minha opinião, é o maior. Deixei um trecho desse poema no blog citado, mas nada como o inteiro:

“Profundamente” – Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

(BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da Manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000)