Ópera-Bufa

Page turner

S
“Palavras não pronunciadas pairam nos lares como espectros, sobretudo nas noites opressivas em que não se consegue dormir e em que todos, olhos abertos, fitam um mesmo ponto no forro da casa” (Moacyr Scliar).

No texto abaixo escrevi sobre alguns autores que quando lemos nos pegam pelo cangote e não nos largam até terminarmos de ler suas páginas, seja um conto, novela, romance ou mesmo ensaio. Eu tentava definir o que é isso e não encontrava palavra adequada. Acabei chamando esses autores de “Os meus clássicos”, pela verve obsessiva de leitura que eles nos imprimem, pela fúria de não conseguirmos desgrudar os olhos de suas palavras até que acabe o livro. “Os meus clássicos”... Palavras bem pessoais para elucidar uma ocorrência completamente particular que pode ser estranha para outros que leiam aqueles autores.
Hoje, olhando jornais passados que ficaram embaixo da porta enquanto viajava para as festas de final de ano, encontrei uma resenha sobre o novo livro do Luiz Alfredo Garcia-Roza, intitulado Na multidão (Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 32). Garcia-Roza criou o personagem Espinosa, um policial carioca que se envolve em intrigas que perpassam a alta sociedade carioca e seu bas-fond (O silêncio da chuva e Achados e perdidos, que virou filme inclusive, são dois de seus livros mais conhecidos). Pois bem. Nesse texto do Jornal de Londrina aparece uma curiosa expressão, page turner, que literalmente vem a ser “virador de página”. O jornalista indicava essa expressão que traz a simplicidade e objetividade da língua inglesa para caracterizar essa novela recém publicada do autor policial carioca. Nada mais exato! Era o modo de se referir a autores desse naipe que eu procurava: vem a ser exatamente o tipo de livro que nós lemos e as páginas vão passando, às dezenas, sem que nos apercebamos.
Nessa semana comecei a ler o último livro do Moacyr Scliar, O texto, ou: a vida – uma trajetória literária (Bertrand Brasil, 272 páginas, R$ 39). Como o próprio título mostra, é uma autobiografia literária do escritor gaúcho entremeada por alguns de seus contos, trechos de romances e novelas. Tudo num tom de conversa e confissão elevadas no mais alto grau de precisão estilística. Mas que delícia ler esse livro! Comprei-o num sebo da bela cidade de Curitiba por módicos R$ 15 e na rodoviária da capital já me punha a lê-lo deslumbrado com a capacidade narrativa de Scliar, de como ele consegue prender a leitura sem cansar, colocando humor, humildade, inteligência e sensibilidade para compor um olhar específico sobre sua formação como escritor e médico. Ao chegar em Londrina já estava na página 123, ávido para jantar, tomar um banho e voltar para esse porto alegre. Um verdadeiro page turner!

Publicado em 13 de janeiro de 2008 às 23:43 por miguel

Comentários

    • Ah, invejei. Uma pena para mim mesmo, embora não deixe de me deliciar com as letras que correm com cheiro de livro novo.

      Virou meu próprio page turner!
    • por Luiz
    • 13.Jan.2008 às 23:52 - Permalink - Reportar
    Luiz
    • saudade de poder ler narrativas. ando só lendo teorias e mais teorias, textos sobre textos, sobre povos, sempre cansativos. ao menos para minha cabeca que já está meio empapucada disso tudo. preciso de poesia. que tal um sarau internético? abracos!
    • por isis
    • 14.Jan.2008 às 00:17 - Permalink - Reportar
    isis
    • Sarau internético?? Como seria isso, indiazinha?? Beijos!
    • por Miguel
    • 14.Jan.2008 às 11:00 - Permalink - Reportar
    Miguel
    • adorei a idéia... (mas eu só comento heim) HUAHUAHAU
      OI MIGUELUXO!
    • por Impostor
    • 15.Jan.2008 às 09:16 - Permalink - Reportar
    Impostor
    • sei lá. pensei em algo tipo a gente combina uma hora no skype, junto com y, ga, jonatas, e quem mais quiser... aí fica mandando poemas e tal. claro que tem que ser meio a noite, a luz de vela e com muito vinho e cognac... que tal? mas tbém por enquanto tem que ser daqui umas 2 semanas, agora tô nos finalmentes do meu mestrado maledito. hihihi. bem, ou a gente pode ver outra opcao, com voz, o skype eu acho que dá, mas nao sei se todo mundo tem, pode ser msn, mas acho ele meio chato. pode ser também via tipos, abrimos uma comunidade sarautica. onde trocariamos poesias e trechos de textos que amamos, enquanto bebessemos vinho e cognac a luz de vela da madrugada. ou ainda melhor, marcamos uma data em que todos vcs me visitem em berlin? ou vc. aí fazemos o sarau aqui, a luz de vela, vinho e cognac. escolha!
      que tal as propostas? contra-propostas?
      beijoooooooooooooooo
    • por isis
    • 15.Jan.2008 às 09:57 - Permalink - Reportar
    isis
    • Miguel, também gosto de Moacyr Scliar, talvez já saiba da coluna no jornal Zero-Hora - eis o link http://zerohora.clicrbs.com... - toda terça-feira. Bom também é o Paulo Scott, escritor de uma safra relativamente nova de Porto Alegre, seu blog é http://www.elrodriselrodris... Isis acredito que você iria gostar muito do Sarau Elétrico que acontece há tempos em Porto Alegre no Bar Ocidente, olha lá http://www.saraueletrico.co...
    • por fab fucker
    • 16.Jan.2008 às 13:18 - Permalink - Reportar
    fab fucker
    • achei bem legal makowski! mas parece que é mais uma leitura coletiva nao? ou o publico também pode participar? eu gostava muito de organizar saraus no meu ape em londrina quando morava lá. ia uns amigos e a gente bebia e lia. era divertido. tinha gente que lia de livros, tinha gente que lia coisas que escrevia. a gente comentava. no fim virava bagunca. mas era íntimo. era uma delícia. mas foram muito poucos. uma pena. aqui em berlim tem muitas leituras, mas nunca encontrei um verdadeiro sarau, como os que fazíamos entre amigos. quem sabe um dia organizamos um de novo? sei lá. mas bem que ia gostar de conhecer esse de poa, afinal parece que muitos ilustres já estiveram por lá, deve ser ótimo! adoro o nome do bar. aqui do lado de casa tbém tem um bar okzident.
    • por isis
    • 16.Jan.2008 às 13:32 - Permalink - Reportar
    isis
    • Makowski! Muito obrigado pelas dicas... Desse escritor, Paulo Scott, estou me aproximando aos poucos, vez por outra ouço seu nome, vi um livro dele num sebo, João Gilberto Noll (outro gaúcho!) sempre acaba me levando um pouco pra perto dele em suas orelhas de livros e entrevistas. Logo lerei algo do cara.
      Ísis! Acho que no seu ap. em Londrina não fui em dias de sarau, mas em outros sempre divertidos e agradáveis! Saudades muitas, sabe que um dia posso aparecer aí em sua Berlim, viu!? Li uma crônica do Rubem Fonseca tão legal, à época da Queda do Muro: chama-se "Reminiscências de Berlim" e pode ser lida aqui: http://portalliteral.terra....
    • por Miguel
    • 17.Jan.2008 às 12:26 - Permalink - Reportar
    Miguel
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