Ópera-Bufa

Tezza, Fonseca, Scliar & Cia.

F
Esperar por um vôo ou por qualquer outra coisa num aeroporto é gravemente desagradável. São aqueles toques automáticos seguidos de vozes impessoais, primeiro em português, depois em espanhol e inglês sofríveis. Vozes masculinas, vozes femininas indistintas. Pessoas correndo com malas pra lá e pra cá.
Há alguns dias passei por Brasília, mais precisamente pelo aeroporto de Brasília, o “Juscelino Kubitschek”. Cheguei lá vindo do sul com a intenção de seguir aqui para o norte. O avião aterrissou por volta de 09:20 a.m., a conexão que eu pegaria sairia apenas 12:20 p.m. se não atrasasse, e esse atraso era quase certo, tratando-se das vagarezas de nossos envolvidos em aviação: passageiros, tripulação, piloto, controladores de vôo, diretores de aeroporto etc ad infinitum. Sem nada pra fazer, coube-me apenas curtir o enfado da área de comércio do JK e perambular um pouco por seus longos corredores. A primeira idéia foi procurar uma livraria para comprar uns livros que há tempo desejava: Enigmas da culpa, do Moacyr Scliar, O filho eterno, do Cristóvão Tezza e O romance morreu, do Rubem Fonseca. Todos os três estavam lá, novos, cheirosos. Sempre me deliciei cheirando livros novos, revistas novas, fascículos recém saídos das gráficas; em alguns momentos de abstinência até jornais servem para essa experiência inefável do olfato. O cheiro da tinta recém fixada no papel novo... aiaiaiaiai... Os três lá e caros, como todo livro editado no Brasil, por suas curtas tiragens e parcas distribuições. A compra dos três sairia mais de noventa reais. Acabei ficando só com o Fonseca e o Scliar. Pelo Tezza ainda esperarei um pouco, certamente até o próximo ano.
Munido dos dois livros (dentro de minha bolsa ainda havia mais três companhias para esses dias de férias: À mão esquerda, de Fausto Wolff, Antologia Poética, do João Cabral de Melo Neto e Extinção, de Thomas Bernhard), sentei-me numa poltrona de espera de um dos corredores do aeroporto. Muita gente também sentada ali, conversando, teclando em notebooks, lendo, ou apenas olhando para os lados. Comecei a ler O romance morreu. Crônicas deliciosas desse autor que só publicou contos e romances em mais de quatro décadas no ofício literário. Crônicas em que o narrador se mostra abertamente, num diálogo direto com o leitor. Crônicas ágeis e sagazes como seus outros textos. E mais uma vez, agora com essas crônicas, pude experimentar uma alegria imensa ao ler um autor como o Rubem Fonseca.
Com outros escritores também tenho essa relação, de ler páginas e páginas sem ficar cansado nem ver a hora passar. Por mim ficaria ali sentado naquela poltrona do aeroporto de Brasília mais umas quatro horas, até terminar todo o livro. Dane-se o avião.
Lembro-me de ter vivido várias outras situações como essa. Uma vez, por acaso, peguei um livro do Luiz Vilela, O inferno é aqui mesmo, e li-o incessantemente, não conseguia me desvencilhar do romance. Depois foram mais Os novos e Graça, e aconteceu a mesma coisa... Lembro-me de ler vários livros de Cristóvão Tezza loucamente, totalmente imerso nas narrativas. Com os contos de Scliar reunidos naquele bonito volume azul de capa dura da Companhia das Letras foi o mesmo: a muito custo conseguia desgrudar os olhos de suas histórias curtas até ler todas. Os romances policiais de Luiz Alfredo Garcia-Roza não nos largam também facilmente... E vários outros autores e textos têm esse poder de nos hipnotizar, de nos viciar.
Alguém pode pensar “isso ocorre só com histórias de ficção”. Não. Pelo menos uma vez tive essa mesma experiência com um livro de teoria, ou não-ficcional. Bastante significativa foi a leitura de Seis passeios pelos bosques da ficção, do Umberto Eco (não conheço ainda a ficção do professor e escritor italiano). E também com Ítalo Calvino e suas Seis propostas para o próximo milênio (da ficção de Calvino eu li um pouco e afirmo que trata-se também de um autor desse time). Um incômodo: como chamar esse time de escritores craques que nos agarram e não nos largam, tamanho é o deleite?
Chamo-os de “Os meus clássicos” seguindo uma das acepções que o mesmo Calvino expõe em Por que ler os clássicos. Não tenho aqui o livro para indicar qual das 14 definições seja. Os meus clássicos são os livros que causam alumbramento, aqueles que prendem a leitura, aqueles que são infindáveis e dão tristeza quando acabam apenas suas páginas.
Eu sei que eles têm funções: devolver-me a cada leitura o interesse inegável pela literatura, o prazer da leitura, o entretenimento pela palavra escrita. Tenho certeza de que eles também se divertem escrevendo, mesmo nos momentos de maior tensão de suas narrativas. Os muitos outros autores que admiro muito são sempre beneficiados por esses autores deliciosos: Graciliano Ramos, João Gilberto Noll, João Guimarães Rosa, Lúcio Cardoso, Machado de Assis, Raduan Nassar, Thomas Bernhard.
Não adianta falar que talvez sejam todos esses escritores do mercado, de best-sellers, voltados pro consumo rápido. Seria grande verdade e grande mentira. Mas não discuto, aqui, isso. Para mim a forma encontrada para entender a magia e o encanto desses autores (aos quais poderiam se juntar vários outros) é que eles me reconduzem às promessas da literatura nos momentos em que estou um pouco distante dela, cansado, desanimado ou preguiçoso diante das letras. Tezza, Fonseca, Scliar & Cia. mostram alegremente, de novo (relembram, portanto), que literatura deve ser sempre, acima de tudo, uma atividade lúdica.

Publicado em 23 de dezembro de 2007 às 11:20 por miguel

Comentários

    • Estava esperando por um novo post.
      Demorou um pouco, mas é muito bom ler seus textos apaixonados.

      Reconforta lembrar você com a cabeça enfiada no meio dos livros, papéis e afins.
    • por A
    • 24.Dez.2007 às 21:07 - Permalink - Reportar
    A
    • isso não acontece só com ficção, isso só acontece com quem tem paixão pela narrativa.

      mesmo os dois livros de não-ficção que tu citou são excelenmtes narrativas contadas por dois magníficos contadores de histórias (o eco em especial consegue ser saboroso até mesmo em seus livros didáticos)
    • por groucho
    • 28.Dez.2007 às 14:17 - Permalink - Reportar
    groucho
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