Ópera-Bufa

Tocantinense

ao norte


"É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo" (J.D. Salinger, O apanhador no campo de centeio).


Tenho um coração que fica no sertão.
No norte,
Nordeste,
Lá pra cima,
Pra frente.

Ele fica às vezes bravo de estar longe e não no lugar onde realmente está...

Tenho uma família com que brigo às vezes.
Depois passa e dá saudade.

(Um coração que dança forró, maxixe,
Lambadão cuiabano –
Que gosta de dançar à solta,
Gosta de sanfona e realejo.
Que é principalmente movido à nostalgia da sanfona.
Gosta de solos de dança num boteco de esquina lá do Tocantins, aquela terra pobrita e quente).

Aquelas vozes eletrônicas bregas e chiques
De um Brasil real? Real é a poeira desse chão em que pisam meus sórdidos pés.

Ressoa ainda na cabeça dura de osso: “Avisa aqueles olhos lindos que eu já cheguei”.

A confusão dessas músicas, olha, meu coração,
É a saudade de você estar longe e nem saber.

Aquilo que conheço ou julgo conhecer me dá medo.
Uma lucidez estranha embriagada,
Um diabinho no ouvido falando
“Pra lá,
Pra cá”...
Um medo inconcluso sem sombras nem raios.

No meu jantar já teve só cerveja, só pinga, só solidão, só cocaína, só sexo
E tudo só.

Todo mundo corre de seu lugar e vai pra outro lugar
Onde haja graça,
Como um burro xucro do nordeste.
Algumas coisas vão ficando pelo caminho.

Nem é esbaforida. Tem cheiro e som de sanfona de música do Tocantins.
Música-povão, música-cerveja, como a gente gosta.
Gritarias de calor ardidas que nem o peito que se arrebenta sozinho numa quitinete da cidade que está longe, longe.

Publicado em 08 de setembro de 2007 às 17:53 por miguel

Comentários

    • bem lindo lindo!
      adorei!

      a propósito: Lambadão cuiabano?
    • por gabi
    • 09.Set.2007 às 12:17 - Permalink - Reportar
    gabi
    • ê Cumpadi véio irmão matogrossense araguaíno, mesclado de pinguim e onça! Onde é que está teu coração? Aqui debaixo ou lá em riba? Porque lá em riba o sol derrete até caixinha de cd, eu sei, eu vi, quando saímos do aquário e avistamos o rio Cuiabá, metálico, era uma luz de trópico, uma ar mais salgado, uma efervescência, me lembro bem daqueles dias. Mas do lambadão cuiabano eu nunca soube que tu era dançarino.
      Acha!
    • por Pílades.
    • 10.Set.2007 às 19:20 - Permalink - Reportar
    Pílades.
    • Vou comentar, mas não pelo sentimento doloroso que me veio quando li a primeira vez...
      Já lhe disse...Já comentei...

      “Avisa aqueles olhos lindos que eu já cheguei”.
    • por Ana
    • 10.Set.2007 às 23:20 - Permalink - Reportar
    Ana
  1. salome
    • Ah, tbém gosti... muito!
      Saudade tbém das Gerais, e de tu, Migueluxo!
      Bjão!
    • por Léo
    • 12.Set.2007 às 09:19 - Permalink - Reportar
    Léo
    • lindo lindo. ai que saudade de ti indiozinho. ainda estou preparando um post para vc. está no forno do meu carinho, lembrança, afeto infinito. suas palavras são um alvoroço. um mundo de mato-grosso, tocantins, miguel. beijo, beijo, beijo.
    • por isis
    • 28.Out.2007 às 12:55 - Permalink - Reportar
    isis
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