O período do dia de que mais gosto é a tarde. A manhã é boa, acordar cedo, sentir-se ilusoriamente útil, respirar o frescor parcial do dia que nasce (parcial, pois a poluição e a fumaça desses dias só proporcionam meio-prazer), ver aquele terminal urbano cheio de boa ou má gente indo trabalhar duro ou fingir que trabalha – tudo isso é agradável. A noite também tem seus melhores caracteres: a suavidade do vento, o peso das consciências pesadas, a rota boêmia, os postes amarelos, o céu que não vemos da cidade. A madrugada, madrasta da manhã, é a noite ao quadrado. Tudo é equação. Mas a tarde...
Depois do barulho, depois do almoço... Depois daquele cafezinho do almoço e o cigarro complementar... A tarde se oferece como o momento propício para estender os colchões conjugados no chão da sala e fugir de tudo com a cortina cerrada. Só e apenas pensar nas coisas que devem ser cumpridas e não são aumenta o prazer das fugidias horas da tarde quente, fria, morna e leitosa. Pegar um livro qualquer que esteja lendo e deixá-lo intacto no sofá para outra hora, agora é a tarde provisória de meio de semana. Uivos de carros, latidos de motos, gritos esporádicos dão o tom da preguiça e abandono ao sono de pedra vespertino.
Único problema: o vizinho do prédio ao lado escuta as mesmas músicas do mesmo disco da mesma dupla, César Menotti e Fabiano. E bem alto. Nunca tive nada contra essas duplas todas que todos meus conhecidos odeiam. Mas música na tarde do meu sono, não! Nisso se esconde um mistério. “Eu falo sério”.
Hoje o vizinho não está em casa. Boa tarde.