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Archive for June of 2007

Morre um chato

June 28, 2007
Morreu o chato Bruno Tolentino. Anteontem, acho. Deixou alguns livros de poesia e uns ensaios polêmicos atacando outros chatos, como os irmãos concretos Campos. Um deles também já morreu, o Haroldo. Entre uma chateação e outra, uma lâmina, como esse prelúdio de A balada do cárcere. Árida.

"Um prelúdio"

Amadureci aos poucos,
cresci muito devagar
como os álamos e os loucos
e acabei indo morar

na Casa dos Homens Ocos,
um charco pardo ao luar
entre o tempo morto, os roucos
rugidos do vento e o mar.

Lá se vive sem querer;
lá ouvi uma elegia;
dou-a aqui tal qual ouvi-a

ao cair do entardecer
sobre a charneca vazia,
os pântanos que há no ser.

(Bruno Tolentino, 1940-2007).

Sono, César Menotti & Fabiano

June 16, 2007
CM & F

O período do dia de que mais gosto é a tarde. A manhã é boa, acordar cedo, sentir-se ilusoriamente útil, respirar o frescor parcial do dia que nasce (parcial, pois a poluição e a fumaça desses dias só proporcionam meio-prazer), ver aquele terminal urbano cheio de boa ou má gente indo trabalhar duro ou fingir que trabalha – tudo isso é agradável. A noite também tem seus melhores caracteres: a suavidade do vento, o peso das consciências pesadas, a rota boêmia, os postes amarelos, o céu que não vemos da cidade. A madrugada, madrasta da manhã, é a noite ao quadrado. Tudo é equação. Mas a tarde...
Depois do barulho, depois do almoço... Depois daquele cafezinho do almoço e o cigarro complementar... A tarde se oferece como o momento propício para estender os colchões conjugados no chão da sala e fugir de tudo com a cortina cerrada. Só e apenas pensar nas coisas que devem ser cumpridas e não são aumenta o prazer das fugidias horas da tarde quente, fria, morna e leitosa. Pegar um livro qualquer que esteja lendo e deixá-lo intacto no sofá para outra hora, agora é a tarde provisória de meio de semana. Uivos de carros, latidos de motos, gritos esporádicos dão o tom da preguiça e abandono ao sono de pedra vespertino.
Único problema: o vizinho do prédio ao lado escuta as mesmas músicas do mesmo disco da mesma dupla, César Menotti e Fabiano. E bem alto. Nunca tive nada contra essas duplas todas que todos meus conhecidos odeiam. Mas música na tarde do meu sono, não! Nisso se esconde um mistério. “Eu falo sério”.
Hoje o vizinho não está em casa. Boa tarde.

Anatomy Lesson

June 08, 2007
De uma profunda falo para cima
A mão esquerda que enfraquece derramando paz
Uma paz de gritaria repetida
Dia-a-dia, em paz de silêncio engolida no sarcasmo
Plantação de penas
E o que propusera na escada do prédio fica como projeto
Abortado em noite de sexta-feira
Porém sempre há de haver uma manhã, uma tarde, uma noite e madrugada
Ela sempre há de voltar
Com sorriso
Com amor
Com aquele olhar que conquista de prontidão
O choro perpétuo não dá trégua

O azul do couro podre é doce e pesado
As contas a pagar são feitas de barro e pano lasso
O metal preto grunhe estrelas vazadas de frieza e tinta bicolor

Em intervalo algum há pessoa a ligar
A chamar
A querer
Conversa ou olhar
Entendimento ou visita

Sem poder fazer mais nada há também o sono e a preguiça
O fastio cômodo de ser assim mesmo
Porque ninguém deseja mais nada a não ser só a si em si de si para si

Então tá.

Um sensual Corpus Christi

June 07, 2007
Antes de viver eu transformo tudo em ficção. Pra nós dois. Eu e ela num feriado do Corpo de Cristo.
Combinamos a situação. Eu passo na casa dela às sete da noite, o início das putas na rua. Não, em sua casa não. Uma prostituta deve esperar seu cliente na esquina.

(- Você fica na esquina me esperando, eu digo ao celular. Passo como quem está à procura de um programa e chego em você).

- E então, o que você faz a essa hora sozinha aqui nessa esquina? Está ocupada?
- Tô aqui de bobeira, por que você não me diz o que quer?
- Tô procurando uma mulher prum programa, mas você parece muito nova.
- Deixa disso, tenho dezoito anos. São cinqüenta reais.
- Uma mulher é muito mais fogosa e safada na cama aos dezoito anos. Pago setenta, mas tenho minhas exigências.
- Quais?, você diz com indiferença.
- Eu dito as regras do jogo. Quero te foder sem camisinha. E também quero gozar na sua boca.
- Não vai me convidar pra entrar no carro?
- A porta está destrancada.

Você entra imediatamente, me examina de cima abaixo, e seu olhar pára no meu pau já duríssimo.

- Ok. Pode já ir trabalhando um pouco. Tá vendo como estou super excitado? Coloca essa boquinha rosadinha pra trabalhar. Mostre do que você é capaz.
- Primeiro a grana.
- Você é novinha, mas muito esperta, né? Já te falei que te pago mais. Agora você, você só me obedece; eu mando.

Você se inflama e começa a passar as duas mãos no meu pau. Tenho que me concentrar na direção, mas o tesão é insuportável. Quando faço uma curva e ponho a terceira marcha, meu zíper já está aberto e você me chupando com fervor, quase engolindo todo meu sexo.
Quase gozo na sua boca antes de entrar no motel. Você não pára de sugar meu cacete vermelho como carne viva. Parece esquecer do mundo, parece só se preocupar com o tesão do cliente. Uma profissional. Mas uma profissional que ama o que faz. Uma profissional cuja missão é dar prazer.

NO MOTEL
E ela me levou pro quarto, certo eu estava de profanar, e me instalou num só colchão de casal, só no quarto, inclinou-se oferecida, por um momento eu pedia a volta, volta tudo!, quero voltar, em casa dormir, sonhar sossegado, mas ela inspirou o leão, tão sem dono, ai!, e num átimo desfizeram-se as roupas e eram meus pêlos roçando seu púbis, ela se oferecendo, eu em todo também oferecimento, inteiros nós ao gozo por vir, questão de tempo, foi um um começo em paz que não queríamos, um comecinho com ela quatro em silêncio, uns quinze minutos, aí uma pausa pro cigarro clichê, uma pausa pra conversa em que ficava subentendido cada desejo secreto, aí foi uma bofetada em seu rosto, ruborizando a carne exposta em pele branca (ela dizendo “sou sua puta, sua sacana, me fode cara, acaba comigo, me faz gozar e goza muito você”), uma penetração brusca, um rompante no pântano das entre-pernas, cada centímetro do meu pau entrando sem impedimento maior, um cuspe na cara, um “canalha fode esse corpo”, “me faz esquecer”, puxando os cabelos como duma égua frenética, eu montado no seu rabo, ela num humor feérico fez que não queria mais, só pra que eu a pegasse numa força que nem tenho, outro cuspe na cara, o suor feito visco, e nós dois atores do mundo dessas quatro paredes sexuais, acreditávamos na encenação da carne, e seria difícil nos desvencilhar do papel justo que a cada segundo nos impunha o ritual dessa noite de quinta-feira, ela não me permitia mais fechar os olhos, o que vi?, o que vi foi seu semblante transfigurado, acreditando, acreditando eu também estava que depois de ela me inundar, chegando sem pressa, mas antes, ao gozo primitivo, me olha intacta os músculos meus arderem em contrações múltiplas, arrojando-se o líqüido seminal em sua boca, nos olhos e no nariz, toda minha porra feito lava de vulcão naquelas carnes branquinhas, e num arranque motriz me puxa junto ao seu rosto, gloriando a mim, a ela, ao mundo com um beijo surdo que espalhou o sêmen por nossos lábios pregados . . .