Vai que tomemos uma cerva gelada, pira na esquina de muita gente, mas onde é que se foi parar? Vacilou, hein. Pressão. Banca de revista, oito da manhã de sábado. O espaço quase se abrindo. E é que tá um bocado frio, final de outono. Por mais que se tente há sempre a possibilidade do perdão. Raspas de coco na calçada. Papel amassado. Desconto de 40% na loja da frente. Olhos nos jornais. Busca de notícias. Hipnose. Emborcaduras de letras consignadas. Um dia um amigo falou algo que não me lembro. Ele disse sobre amizade. Ele falou também sobre algumas coisas do céu. Algumas coisas que não são do céu, isso é o que são, segundo meu entendimento. Eu também posso dizer muita coisa, começando que tenho um pâncreas e dois olhos. E que de vez em quando nasço. E que tomo cerveja quando escrevo, portanto, não se acredite em algo. Gosto de panqueca feita na casa de amigas, de voltar o tempo na minha cabeça, mesmo quando ele é doloroso, de projetar, mas de viver o agora não, não gosto, não. Mas então. Um dia saí com o 38 do meu pai, que viajava, escondido. Eu consumia crack na lata e fiquei muito seguro. A melhor droga. Coloquei o trezoitão na bunda e saí em busca de keep cooler, alguma cerveja, alguma buceta nova, pequenina e sorridente. Ninguém apareceu. Fiquei no carro com vidros embaçados manejando minha arma. Naquele momento eu sabia que podia matar algo além de mim ou eu mesmo. Não por quê um tiro na minha cabeça? Não por quê deixar aleijão um cabra ali do meu lado que eu configurava como inútil? Não, por quê? A beleza da vida. Ah. É sempre bela e faceira. E se esconde de inútil couraça quando é apenas degradável e acaba servindo em qualquer de uns? Vem me dar um beijo, eu que te não mais quero. Um “e”.
Publicado em 20 de maio de 2007 às 00:48 por miguel