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Archive for April of 2007
April 27, 2007

Eu arrumando minhas roupas, tranqüilo, satisfeito, quase todo o apartamento em ordem, faltava só limpar. Que engraçado. Toca o interfone, mas eu não espero ninguém. Sei lá, pode ser engano, uma vendedora ambulante interessante, uma representante da nova empresa de telefonia atraente, estou sozinho mesmo.
- Oi.
- Tem guarda-chuva velho pra arrumar?
- É. . . o que? Não. . ., tem não.
- Tá. . .
Ponho o interfone de volta no gancho, penso. Por que gaguejei? Eu não tenho mesmo guarda-chuva pra arrumar, nenhum velho jogado na caixa de papelão no canto da cozinha. Aquele xadrez vermelho que a Luísa me emprestou no dia em que fomos ver uma peça de teatro, ele já está meio quebrado, as hastes moles. E tivemos que dividi-lo, os dois, pois só havia esse. Foi legal aquela peça, ao ar livre, perto do calçadão. Eu fumava naquela época; ela bebia pra caramba. Aí eu tive que pedir pra ela parar de beber, eu não agüentava mais sentir aquele hálito de conhaque colado ao meu rosto. Ela falou pra eu calar a boca e parar de ser egoísta, pois estava se molhando toda. Enquanto isso, palhaços. Equilibristas em cavaletes de madeira molhada. A peça foi legal mais pela situação e imagem que por mérito dos palhaços. A chuva, a imagem: um entardecer molhado, meio escuro, meio claro, e quem voltava do trabalho parava pra sentir o hálito de Luísa e pedir pra eu apagar o cigarro. Apago não, cara, adoro fumar em tempo chuvoso, sai mais fumaça e mais densa, olha: fúúúú. . .
Voltamos coladinhos sob o guarda-chuva e viemos aqui pra quitinete. Ela falou que eu tinha que arrumar essa bagunça, que o chão do banheiro estava enlameado, essas coisas sem graça. Eu falei pra ela lavar uma cueca pra mim
for please, ela achou sacanagem da minha parte e mandou me foder:
- Vai te foder. - E foi embora beber, certeza. Eu acendi um cigarro e fiquei pensando onde arranjar sabão em pó naquela hora. Também desci as escadas e fui pra rua.
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April 22, 2007
Rodopio frenético de pausa em ímpar sem brincadeiras avulsas a expulsar do corpo roxo a marca da solidão heróica pois sempre houve quem detestasse o rebanho par não tem mais ou secou a fonte os horrores brotam as carnes vacilam a fórmula atrasa o sem vigor em cada lugar que corro olho vejo reflexo de deserção inócua e privada e taquicardia de pânico porque nos auspícios de toda ordem há sempre a procura das poeiras do canto sem limpeza ou brilho há também o acúmulo de palavras sem serventia nenhuma nenhuma e pessoas indo embora voltando indo e voltando confusas em chuva ou em sol repostas não há perguntas minguam e se pergunto pra onde nunca tem resposta também mas vai e volta vai e volta numa chance subordinada a patifaria e a mediocridade se traz em algum olhar ou palavra ou ação de amizade também traz a desconfiança o olhar oblíquo feito hachuras a postura envenenada de inveja corrupção melhor ir e não voltar melhor apagar apagar sumir dos mapas e das creches e dos asilos e das casas sem casa ou casa de custódia sumir do apartamento fazenda ou edícula cair na rua sem final de asfalto terra lama água sacar da arma numa encruzilhada passar ao meio sem opção porque porque não há perfeitamente nada que se deva optar.
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April 18, 2007
30
(Em memória de meu pai, transcrevo suas palavras: "e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço.") (trecho de
Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, 1975).
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April 09, 2007
_ Posso me sentar ao seu lado? Pois bem, muito obrigado. Eu já fui animal numa fazenda. Esse daqui pára antes da Caixa? É esse mesmo. Mas falo pouco, logo durmo encostado no vidro. Nem posso dormir, pois está perto. Mas durmo. E durmo. E sonho: que sono é esse que me entrava?, já fui animal numa fazenda: logo no trabalho, direto pro trabalho, de volta pra casa. A luz que vem de trás é do semáforo? Vou dormindo. Passou ali, ó, minha ex-mulher, parece estar grávida de novo. Aquele homem atravessando a rua pediu comida ontem. Gritava. E não é mentira, não, é o que eu acho e você acha que era verdade. Um homem gritando fome. E jurava não estar bêbado. Acredito. Não é somente estando bêbado que a gente grita. Estamos já no próximo ponto? Fui um jacaré numa fazenda. Tratava de comer peixes logo ao amanhecer. Peixes fritinhos, empanados na areia da manhã. Me deixava feliz. Então são 18:30? Hora dura, essa. Hora do rrrrush. É assim? Acordei, me desculpa. Volto a dormir. “Dormir, dormir, dormir, testa lá, bunda pra cá, que é pra rir, pra rir, pra rir” - minhas filhas inventam músicas. Sabe o que acho? Que esse ônibus é muito bom. Essa nova frota de ônibus é a melhor. Renovação. A gente entra no ventre, corre por veias, chega junto com todo mundo num ventre maior, salta, pula de ventre em ventre, dando “oi” aos outros amigos, todo mundo procurando seu ventre. Dorme. E somos ninados por máquinas.
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