Archive for February of 2007
Tarde
February 23, 2007
Que tarde bonita de sexta-feira, o sol se pondo lá pros lados do cemitério, milhares de pombas no centro da cidade procurando um pouso sujo. Poucos carros nas maiores avenidas: JK, Higienópolis, Bandeirantes. A luz vai escasseando aos poucos, nuvens se apagando, prédios acendendo. Mais uma sexta. Mais um dia. Mais grafite no papel. O portão do prédio em que moro abre-e-fecha, abre-e-fecha. As linhas de ônibus passam levando os últimos saídos do trabalho. Pessoas voltam do Zerão andando colados ao muro do cemitério. Alguns mercados fecham. Um cigarro na janela. As últimas luzes do sol dão show no céu. Acender a lâmapada.
Nosso primeiro carnaval ouvindo Bach
February 18, 2007
Traz um pouco mais de chá pra mim, Gi; faz um boquete enquanto estrangulo alguns vegetais.
Vai te foder que já cansei dessa chaleira, a porta da sala tá aberta, não vê?
A porta da sala desse apartamento está sempre aberta, Gi.
Então fecha, porra.
Ok, ok. O chá já ta pronto?
Mais dois minutos.
Sabe, Gi. Nem parece carnaval nessa cidade. Ou não é carnaval, hoje?
Ah, sei lá.
Você perdeu todo seu romantismo.
Romantismo??!! Três dias do carnaval dentro dessa porcaria de apartamento tomando chá, comendo essas gororobas naturais sem gosto, dormindo, trepando e ouvindo uma música que... que nem dá pra ouvir direito... sem ritmo! Estou cansada, talvez vá sair. Não agüento mesmo ficar mais aqui. Não gosto muito de carnaval, pra lhe falar a real acho que não sei o que acontece com a gente, tanto tempo junto, agora aqui assim...
Ah, Gi, você não entende nada de música.
Nem você. Toma seu chá, vai. Filho-da-puta.
Aumenta um pouco o som.
Aff...
Vai te foder que já cansei dessa chaleira, a porta da sala tá aberta, não vê?
A porta da sala desse apartamento está sempre aberta, Gi.
Então fecha, porra.
Ok, ok. O chá já ta pronto?
Mais dois minutos.
Sabe, Gi. Nem parece carnaval nessa cidade. Ou não é carnaval, hoje?
Ah, sei lá.
Você perdeu todo seu romantismo.
Romantismo??!! Três dias do carnaval dentro dessa porcaria de apartamento tomando chá, comendo essas gororobas naturais sem gosto, dormindo, trepando e ouvindo uma música que... que nem dá pra ouvir direito... sem ritmo! Estou cansada, talvez vá sair. Não agüento mesmo ficar mais aqui. Não gosto muito de carnaval, pra lhe falar a real acho que não sei o que acontece com a gente, tanto tempo junto, agora aqui assim...
Ah, Gi, você não entende nada de música.
Nem você. Toma seu chá, vai. Filho-da-puta.
Aumenta um pouco o som.
Aff...
O sonho afastado de Nijinsky
February 16, 2007
Nijinsky em olhos de ser, um fauno que eu nunca conheci, nunca conheci dança, nunca conheci ritmos, nunca conheci silêncios direito, só vórtices, só turbilhão em bares mal freqüentados. Que quando os bares começarem a ser bem-freqüentados eu caio fora, eu pulo pro lado da calçada e me sento, esperneio ao olhar o olho pintado de Valentino em quadro. Eu também nunca conheci queixo quadrado, nunca conheci poses de cartazes do século passado, na minha ignorância eu senti o salto preparado de Nijinsky no Musée d´Orsay em 2001. Em Paris. Que também nunca foi muito bem freqüentada. Aí eu digo que estou enfeitiçado e ela diz que tudo continua, mesmo no norte do país. Aqui também um coração pulsa, aqui também a carne apodrece, aqui também há assalto à mão armada. Armada.
C7/9
February 13, 2007
O grosso eu terminei, espero um contato. Falta só um remate, a pontuação que você me fará o favor de mostrar, a teu gosto. Afinar o instrumento não é minha praia, cê sabe. Mas uma música dessas não pára de tocar, não fiquei tanto tempo longe pra te definir uma escritora e eu um músico. Agora música e letra são minhas e o maestro ainda não chegou. Pra você sobrou o sangue: um quadro pintado. Quer uma sugestão? Centro Comercial, Lanchonete Vila Rica, 11h30, almoço. Tem de estar chovendo, não vale se não. Compra um cd de música clássica no sebo do lado e espera a chuva parar pra comer um virado paulista. Uma pepsi, garrafa de vidro, 290 ml. E muita pimenta. Isso enche. Ao voltar pra casa feche o guarda-chuva, onisciente, não vai chover mais. O sol se abre atrás do Hotel Coroados, as últimas gotas traquejam, mas não secam antes de bater no chão. Aí socorro de Londrina, numa sala com quarenta e três idiotas, é aula com carabina. Um salário a receber pela prostituição. Quem disse que a literatura não é uma bengala pra auxiliar o prostituto ser chamado de professor (espreme uma laranja bem ácida na goela da Rosely, espreme, vai, a Rosely tem de ser sacrificada). Uma casa pra vender e outra pra alugar. O aumento do volume da cabeça leva tempo. Programou seu ano? Cada bimestre tem de ser cuidadosamente sacramentado, ou é a demissão. Isso o de menos, eu escrevo de verde no quadro negro. E no intervalo de um cigarro a outro, a saudade dói. Dói aqui, ó: em notas agudas. Não quer verificar onde me abrigo em noites-temporais?
O sino toca ao meio-dia
February 08, 2007
Porque quando acordo e gel no cabelo, pasta nos dentes, água nas mãos: quinta-feira de aulas, sou professor. E me ponho a falar, mas ninguém escuta, ninguém escuta, eu falo e falo e o caranguejo, digo, aquele com cabelo de caranguejo estraçalha meu humor, a putinha que trepa com o irmão me deixa de pau duro e é loira, é morena, é triste. De súbito saco meu 38, acendo um cigarro de cravo e o cheiro de pólvora se mistura ao de cravo, batem à porta, é a coordenadora pedagógica com os olhos arregalados pelo vidro e eu digo ninguém entra, ninguém sai, e a Rosely vai ser sacrificada pois caiu da cadeira. Bang-bang, dois na cabeça. O sino só toca ao meio-dia; então romantismo brasileiro, na poesia, se divide em três gerações, entenderam? Alguma pergunta? Nada? Até quinta que vem.
A saudade em notas agudas
February 03, 2007
Diz pra eu não ser tão nojento, que cagar de medo não leva a nada, que forçar a barra não tem graça, procurar o banheiro de dez em dez minutos é inútil, o vômito agora é no tapete que eu mesmo comprei. Mas insista que o x-bacon da esquina ainda tá quente e o guaraná gelado, não é nada demais, logo a gente se vê, é por trabalho e por nós mesmos que eu me demorei, sempre estarei pensando em nós pela cidade desolada que construímos juntos, brinquedos Lego no dia-a-dia, trepadas no forno da quitinete ao meio-dia, antes de você ir trabalhar e eu sonhar com o Cartola em som.
Monstruosa
February 01, 2007
Esse acordar nos trampolins de noites, insossas bocas de cigarro a olhar horizonte onde nasce sol (de novo!), olhos pesados, flatulências das pingas anteriores; um papo desenfreado, que quando chega em casa quer se desmembrar por fios de telefonia, satélites, rádios, fibras óticas ou de ar, rede ou bandeja de prata em pó; transformar tudo em resoluções provisórias, um discurso só, besta, gasoso, lógico, essa porra de paixão, nesse “discurso monotemático da alma” que ela parece ser.