Aconteceu há pouco e estou agora a escrever enquanto aguardo interrogatório. Estava com minha cunhada, Otília, no cartório do calçadão. Fui com ela pedir uma certidão de óbito de seu pai. Falando com a moça atendente, esta me pediu que eu esperasse um momento. Ok, a gente espera, não tenho muito o que fazer mesmo, o movimento lá fora tá grande, nessa chuva todo mundo se lambuza, seus guarda-chuvas se abrem em flores, uns correm, outras molham os pezinhos sob sandálias indecorosas, pés brancos, unhas feitinhas, ai ai, dedinhos carnudos pedindo umas mordiscadas minhas. Foi quando olhei de lado. Otília amamentava o Bernardinho, seu filho recém-nascido, meu afilhado. (Como dizer isso, o que se passou? Voei em seu seio esquerdo, pois o direito estava sendo usado por Bernardinho. Voei como pássaro decidido a pescar no lago aquele peixe visto de cima, como cobra-cega num bote surdo voei despreocupado e instintivo que não consigo precisar. Depois só o silêncio constrangedor e algemado. Agora aguardo. Como vou dizer ao delegado que não queria exatamente prejudicar o bico do seio esquerdo de Otília?)
Publicado em 29 de janeiro de 2007 às 22:53 por miguel