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O livro Forrest Gump

June 15, 2008
Groom

Li o romance de Winston Groom há uns dois meses e fiquei tentado a escrever sobre ele. Tinha várias idéias, referências, leituras e comentários. Acabei me atrasando e perdi algumas proposições.

Mas me ficaram algumas: 1. trata-de de um genuíno page turner (aquele tipo de livro que só se pára de ler quando acabam as páginas, infelizmente), 2. Forrest Gump é uma narrativa americanóide, que exalta a cultura e política americanas, ou não?

Bom, aí acho que devemos nos centrar em uma distinção. O livro é muito (muito mesmo!) diferente do filme. No livro, Forrest não é tão bonzinho quanto o singelo personagem interpretado por Tom Hanks. Em algumas partes é violento, não por ser incitado, mas por existir mesmo. Não é politicamente correto: fuma maconha, fala palavrões quase sempre, não é complacente. E a crítica à política americana do século XX é avassaladora, algo apenas tangenciado no filme.

Realmente, é um livro de um ex-combatente do Vietnã. Mas vai além disso, como sempre ocorre num um bom livro, e Forrest Gump o é. Então uma primeira constatação: somos guiados pelas circunstâncias, ou ainda: somos carregados por forças sociais, culturais, econômicas etc, queiramos ou não.

Como se ele dissesse em vários momentos: você está mesmo acreditando que eu sou um idiota? É uma consciência metalingüística que está longe de ser evidente no filme. O narrador do livro Forrest já nas primeiras páginas diz: “Mas eu sei alguma coisa sobre idiotas. Provavelmente é a única coisa que sei, mas li sobre eles – desde o idiota daquele cara Doch-toévski, até o bobo do Rei Lear, o idiota de Faulkner, Benjie, e até mesmo o velho Boo Radley, em To kill a mockingbird – ele era um idiota sério. No entanto, o que mais gosto é o do velho Lennie, em Ratos e homens” (GROOM, 1995, p. 10).

Bom, ele parece saber alguma coisa...

Ainda seja a grande questão de Forrest Gump, o livro e o filme: somos idiotas sempre, não importa o país poderoso ou miserável em que a gente viva.

Teríamos tanto a discutir sobre o livro... Logo logo a Globo reprisa o filme. Nesse ano, se não me engano, já foi apresentado duas vezes.

Susto na esquina

June 11, 2008
Foi com alumbramento que ontem, na esquina encostado esperando condução, risquei os olhos nessas palavras de Kafka. E ainda há outros riscos no conjunto.

“À noite”

Afundado na noite. Como alguém que às vezes baixa a cabeça para meditar, totalmente afundado na noite. Em torno as pessoas dormem. Uma pequena encenação, um inocente auto-engano de que dormem em casas, em camas firmes, sob o teto sólido, estirados ou encolhidos sobre colchões, em lençóis, sob cobertas, na realidade reuniram-se como outrora e mais tarde, em região deserta, um acampamento ao ar livre, um número incalculável de pessoas, um exército, um povo, sob o céu frio, na terra fria, estendidos onde antes estavam em pé, a testa premida sobre o braço, o rosto voltado para o chão, respirando tranqüilamente. E você vigia, é um dos vigias, descobre o mais próximo pela agitação da madeira em brasa no monte de galhos secos ao seu lado. Por que você vigia? Alguém precisa vigiar, é o que dizem. Alguém precisa estar aí.

(KAFKA, Franz. Narrativas do espólio. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)

No surprises

May 31, 2008
Claro que ao som e voz de Radiohead: www.youtube.com/watch?v=cQqbuZOPE5g

A melancolia alegre de agora beber uma cerveja no próprio quarto e olhar um pouco pra trás. As janelas emparelhadas. Cada um fuma seu cigarro olhando pra frente e logo ali, a menos de 5 metros, tem mais concreto, em outro bloco de prédio do condomínio.

Mais pra trás, minha época mais feliz, de universidade. Não havia preocupação em garantir as contas pagas para todo mês. Havia tanta festa dentro e fora dos quartos das ruas Hugo Cabral e Pará. Hoje pra mim lá não havia dúvida, eu era vivo para comer, beber, transar, ler e viajar. Essa música intimista do Radiohead era escutada mais alto, quando não se tinha muito pra esconder. Hoje ela vai baixo quando.

O improviso era outra coisa.

Aquela seriedade lúdica podia esperar um pouco mais.
As presenças de espectros agora dão um sentimento formado e garantem conforto.

Escutar alguma música do Radiohead exige. O Valentino tocaria "Life in a glasshouse" com a avenida Bandeirantes em orvalho às 06:30 am e a gente catando copo de plástico com resto de cerveja?

Parece, olhando hoje, que não há mesmo nada com que se surpreender, tirando essa vista do passado, de construir uma narrativa bem guardada de bebedeiras, muito sono (quando não tirava a cama pra se recostar), viagens, caronas, aulas assistidas. Agora não há pra quem se mostrar a nova arrumação do quarto.

Amargo Filo

May 23, 2008
Filo

Os dias de Filo são interessantes em Londrina. As pessoas tendem a ser mostrar mais modernas, tanto no vestuário (quanta gente moderninha!), quanto nos papos (quanta cabeça pensante!) e na ânsia por teatro. Uma ânsia que me parece verdadeira, mas só contemplada em duas parcas semanas de overdose teatral, em que você nem consegue deglutir e refletir bem sobre os espetáculos que vê. Pula de uma peça para outra na correria dos horários conflitantes.

***

Ressurgem também no Filo pessoas que você julgava extintas. Ressurgem do esgoto, das esquinas, em bandos. Modernos, é claro.

***

A imprensa londrinense, se existe tal entidade, revela-se completamente chapa-branca na cobertura do festival. Por exemplo: hoje no Jornal de Londrina apareceu um tímido comentário crítico na reportagem de Ranulfo Pedreiro: “Os ingressos do Filo começaram a ser vendidos ontem às 11 horas no Shopping Royal Plaza, e a fila formada foi grande durante todo o dia”. Mentira. Os ingressos não começaram a ser vendidos às 11 horas como disse o repórter e como prometeu a organização. Era quase uma da tarde e ainda não havia ninguém com ingressos nas mãos, talvez somente quem os recebe de cortesia: jornais, televisões, empresários e “amigos do Filo” que não estavam sentados no chão do shopping e sim nos sofás de suas casas curtindo o feriado.

***

Por falar em shopping. É o lugar mais apropriado para vender os ingressos? Por que não vender na Casa de Cultura da UEL, que só na época de Filo tem uma agenda regular? Por que só cinco guichês no Royal? Por que não distribuir a venda em vários lugares (na própria Casa de Cultura, mesmo no Royal e ainda num estande na Concha Acústica? Com os lugares numerados e a possibilidade de controle eletrônico dos ingressos vendidos poderia ter uma comunicação e facilitar o acesso dos interessados aos espetáculos. A organização do Filo quis inovar com ingressos numerados, mas acabou dando um tiro pela culatra (eita lugar comum!) atrapalhando suas intenções de organizar.

***

Há um ano de preparação do Filo. Um ano bem aproveitado. Quase sempre a programação é divulgada de última hora. Os responsáveis se sustentam o resto do ano com o dinheiro público e privado dos patrocinadores?

Os maravilhosos dias

May 06, 2008

Trabalham dias no céu, no azul, na pele.
É o outono, a melhor das estações.
Há calor na pele evaporando ventos que desfolham a casca do vivo.
E há outras peles subterrâneas que não se deixam arrancar.
Num improvável acesso chega o sol não mais fugaz, eterno sol de eternos céus azuis.

Uma carta ao pai

May 02, 2008
Kafka

Mês retrasado o senhor veio me visitar. Uma semana antes da Páscoa. Estava em férias, e aproveitando-as na casa de sua mãe e irmãs na região de Campinas, esticou até Londrina. Ligou: “Vou passar uns dias aí com você”. Fiquei um pouco temeroso, por dois motivos: 1. ando muito embaralhado com trabalho e estudo; 2. há algum tempo não permanecíamos sozinhos.

Foram apenas dois dias aqui em casa: sábado e domingo. Aproveitamos bem. Fomos ao Museu Histórico da cidade, onde não havia ido ainda, almoçamos naquele simpático restaurante vegetariano, passeamos no shopping olhando despreocupadamente as vitrines, pegamos um ônibus errado que rodou rodou e voltou ao ponto de partida. Era noite e chovia. Foi um bom passeio redundante. Enfim conseguimos pegar a linha certa e descemos na avenida. Depois subimos a outra avenida tentando fugir da rala chata chuva que não nos molhava, mas umedecia. Cumprimos a quadra do cemitério São Pedro sem pestanejar.

Comemos pizza. Conversamos nós três: o senhor (o pai), eu (o filho) e ela (a namorada do filho). Dormimos cansados e satisfeitos.

Na segunda-feira, quando eu me preparava pra ir trabalhar, o senhor entrou num táxi e foi pra rodoviária tomar o ônibus de volta à casa das tias e da vó.

Foi uma boa visita. Não tenho, como Kafka, que nos olha acima de duas maneiras, do que reclamar. Ele o fez em sua carta. Eu agradeço sua vinda.

O ex bar da minha rua

April 27, 2008
Sexta-feira, dia 25/04/2008, fui ao Bar do Jota (rua Prof. João Candido, 1256 – Centro, perto do cemitério São Pedro e da J.K.) com alguns amigos. É o único bar que freqüento com alguma assiduidade, geralmente uma vez por semana, depois que chego do trabalho. Estávamos sentados à mesa do lado de fora e, em frente à nossa, várias mesas juntas, com uma maioria de mulheres. Duas delas estavam muito próximas, trocavam olhares de carinho, se abraçavam e, em dado momento, deram alguns beijos. Eram basicamente “selinhos”, não beijões reveladores da paixão que talvez sintam uma pela outra. Elas estavam bem no meu campo de visão.

Todo mundo sabe que mais da metade do público do Jota é composto de homo e bissexuais. A parcela hetero, pelo menos pela experiência que tenho por estar lá, não parecem se incomodar muito ao ver dois homens ou duas mulheres se beijarem. Eu confesso que acho até bonito, pois de alguma forma é um avanço as pessoas demonstrarem suas sexualidades da maneira que quiserem. E essa discussão em ser homo, hetero, bi, tri, ou o que for, é de uma tremenda chatice. Rótulos servem apenas no início do conhecimento de alguém, depois perdem o sentido com a complexidade que as pessoas tendem a mostrar.

Acontece que uma hora o garçom, um senhor que me enoja pelo seu jeito de atender e pedir centavos pra sua “caixinha” (se não me engano seu nome é Mário), chegou até as meninas e fez um gesto que interpretei como uma ordem para as duas pararem de se beijar ali. Falou de modo ríspido e repulsivo. As duas apenas pararam e olharam-no de modo submisso, como duas ovelhas.
Não acreditei no que vi e fui ao balcão falar pro João (que arrendou o bar) o que seu garçom fizera e também perguntar se tinha alguma norma que proibisse aquilo.
As respostas dele tento resumir:

“Aqui isso não é liberado”
“A maioria das mulheres que vêm aqui são assim. Mas elas são sempre bem-vindas”.
“Uma vez uma mãe reclamou que passou aqui com o filho pequeno e tinha um casal de homens se beijando”.

Ok. Pelo que sei isso é caracterizado mais como crime do que como afronta a qualquer pessoa. Pelo que sei ganhar dinheiro com as bichas e sapatonas (uso esses termos porque me acho o suficiente amigo de vários homossexuais para assim escrever) pode, mas eles demonstrarem seu afeto, não. Um casal hetero se agarrar furiosamente, com beijos e pegadas mais fortes pode... Duas mulheres se beijarem ternamente, isso não.

O que me assusta é ninguém falar nada. Tudo bem que as meninas já devem enfrentar uma barra pra de repente se assumirem e se exporem com algum argumento. Tudo bem que uma possível criação antiquada e machista do garçom e do João leva a esse tipo de repreensão.
Tudo bem PORRA NENHUMA. Cansei de engolir sapos e ficar quieto. Cansei de ver esse tipo de preconceito e ninguém falar nada. Não sou militante em causa alguma, MAS ISSO É ERRADO! Ou não?

E a noite estava propícia a exemplos de distorções. Um casal estava com seu filho recém nascido lá, chorando. Marquei a hora: 01:30 a.m. Não era esse o crime? Falei pro João: “Crime, safadeza e tudo mais é esse casal trazer uma criança para um bar nesse horário. Era isso que você devia proibir. Bar é lugar para criança?”

É muito complicado se decepcionar com alguma coisa.
Só sei que o que eu puder fazer para diminuir a clientela do Bar do Jota, eu farei. Até, triste, vou evitar ir lá, mesmo sendo perto de casa.

E que engraçado. Pesquiso na net e olha a descrição que acho:
“O Bar do Jota é um endereço tradicional no meio intelectual e universitário, embora abrigue diversas tribos da cidade. Faz todos os tipos de porções e lanches, incluindo a famosa vaca atolada, servida mesmo no período do verão. Também estão à disposição dos clientes duas mesas de sinuca.”
(http://www.planetalondrina.com.br/guia/guia.asp?Categoria=44)

“Meio intelectual”, “embora abrigue diversas tribos da cidade”... Só rindo. Esses caras são engraçados.

Gimme shelter

April 21, 2008
Na festa começam acordes de guitarra devagar devagarzinho. Olho as pessoas e elas parecem também sentir. Os acordes saem do silêncio e rodam os cômodos da casa, gelam as latas de cerveja, de vinho. Saem das fumaças dos cigarros. Flutuam no ar chuvoso. Caem no asfalto escuro da noite, empestam o ar da chuva lá na baixada perto do vale. Retornam anos de estudo na graduação universitária. Antigos amigos na lembrança, novas conversas, alguma coisa pede pra reviver. “War, children, it's just a shot away”...

No restaurante

April 20, 2008
Uma mulher senta-se à mesa do self-service. Reza antes de comer. Batata frita, torresmo, churrasco e ovo. É o que compõe sua religião. Mas morrerá antes de acabar o macarrão.

XIII

April 05, 2008
"Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou".

(Jorge de Lima, Invenção de Orfeu)

A quinta (e última!, espero) merda do dia

March 23, 2008
Não tinha como deixar de relatar mais uma. Sinto-me constrangido. Inacreditavelmente cagado mesmo. Voltando da Concha Acústica, nesse domingo de Páscoa, à noite, lua cheia, pós-feriado, abatido pela semana de muito trabalho que se anuncia...
Na esquina da Espírito Santo com a Souza Naves uma meleca de pomba bem na testa, nos óculos, no nariz. Uma merda de dia, de noite.
Boa bosta de semana! Merda a todos nós! Que nos chafurdemos nela!

FUDIDO! Ou AS QUATRO MERDAS DO DIA EM UMA POÉTICA

March 23, 2008
Baseado em histórias reais, recentemente reais... Reais há apenas alguns minutos...

Já acontecera ontem o que aconteceu hoje pela manhã, exatamente doze horas depois. As vizinhas viajaram para a Páscoa e esqueceram o despertador ligado, daqueles de som típico: “Pi pi pi pi! Pi pi pi pi!! Pi pi pi pi!!!” E as exclamações aumentam a cada compasso quaternário. A Música dos Infernos!!!! Acordei direto de um sonho, amanhecendo, e no final do sonho eu tentava por tudo quebrar um despertador indestrutível.
Pois ontem à tarde foi uma prévia. O barulho começou a desanimar todo mundo do prédio por volta de 17h50 e se estendeu até 18h30 no mínimo, pois não agüentei ficar em casa e checar a hora exata que acabasse o martírio.
Saí, conversei com amigos, dei risadas, falei, ouvi, enfim, toda essa rotina. Cheguei em casa não muito tarde, mas com sono. Comi algo e fui dormir.
Ao despertar neste domingo preguiçoso pelas vizinhas “sem noção” (“Pi pi pi pi! Pi pi pi pi!! Pi pi pi pi!!!”) também quis fugir. Logo me lembrei de que hoje é dia de feira na rua ao lado do cemitério. O pastel do Seu Paulo, um japonês falante ao extremo (contrariando a tradição), seria uma delícia para aplacar um pouco a raiva de ter sido arrancado tão cedo da cama. Pus uma camiseta e fui pra rua.
Um pouco antes de descer à esquerda a Alagoas, um frentista do posto de gasolina do outro lado pergunta se tenho horas. Quando vou responder negativamente: “Pluft!”
Nem preciso olhar para o chão porque o cheiro e a textura me avisam: enchi meu pé de merda de algum bicho. Pior: estava usando chinelos, de forma que foi merda em tudo, principalmente entre os dedos. Pude identificar que era de cachorro pelo volume. Também de cavalo poderia ser, mas não é freqüente aparecer cavalos ali ao lado do cemitério. Outra coisa pude identificar: não era de cachorro de rua, e sim de cachorro cuidado. Explico.
Cocô de cachorro de rua geralmente é mole, macilento, apresenta uma consistência inteiriça, mas como se fosse encapado por uma película gosmenta. Quase sempre tem uma coloração verde ou marrom-esverdeada, com variações indicadoras de sua respectiva e variada dieta de dejetos urbanos.
Cocô de cachorro cuidado em casa também é bem fácil de se identificar. É mais duro e firme, porém mais quebradiço. E se quebra em blocos, ao passo que o de cachorro de rua não se quebra propriamente, mas se espalha como uma pasta pegajosa. A famosa correspondência com o abacate. O cocô de cachorro cuidado em casa tem uma coloração bem típica, que revela a digestão bem feita de um animal nutrido de ração. É uma bosta uniformemente marrom-clara.
Os dois fedem pra caramba.
Atravesso mancando a rua (primeira reação física do “embostado” no pé). Mas o que fora ferido era meu nojo. Peço ao frentista uma torneira. Ainda bem que havia uma com jato de água muito forte que levou os odores dos excrementos caninos.
Decidido a não me entregar a um infortunado começo de dia, sigo à feira. Mas outra surpresa: a barraca do Seu Paulo ainda não estava armada! Hahahahahaha. A de pastel... Desço mais a Alagoas e vou a outra barraca (essa já armada e com clientes, hahahahaha). Acabo comendo um pastel de palmito insosso e um pingado bem mais ou menos. Como e volto pra casa andando vagarosamente, torcendo para que o apartamento das vizinhas tenha explodido e levado aquele despertador para os ares.
Chego em casa e está tudo silencioso novamente. Amém.
Amém o caralho! Cólicas intestinais. Minha barriga dá sinais de erupção, ou de irrupção. Ou de erupção para baixo, sei lá como se diz isso. Só sei que o nome disso é caganeira. Deve ter sido o meio melão que comi antes de dormir misturado ao pastel de palmito matutino. Merda!
Assim, fudido (com “U” mesmo, e não é o certo, o sonoro e o usado?), sento na privada e fico pensando. “Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei…”
Ah, Bandeira! Sempre você. Até e principalmente nessas horas.

Tempos

February 17, 2008
sir
“O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente” [...]
(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 185)


Acabou ontem à meia-noite o horário de verão. O estratagema começou cedo, em 14 de outubro de 2007, e se arrastou por mais de quatro meses, terminando em 16 de fevereiro de 2008. Sempre quanto acaba mais uma temporada de economia de energia (e parece haver economia mesmo, pela utilização mais larga da luz solar, isso provado por estimativas do Ministério de Minas e Energias), tenho uma sensação estranha.

Acordar e sair de casa no escuro pra trabalhar, como um bóia-fria, é chato. Ou partir feito um atento guarda de banco para um longo dia de olhar. Um sonâmbulo cobrador de ônibus. Prestativo enfermeiro. Professor. Mas também há a grata possibilidade de chegar em casa antes de escurecer; de ver o pôr-do-sol da janela; observar as últimas rajadas de sol no Cemitério São Pedro; e principalmente pesar a luz intermitente do crepúsculo das oito e meia até nove da noite, que passará a ser degustada de agora ao início do inverno cada vez mais cedo, entre seis e sete.

Em outros países há também horário de verão?

Ontem tivemos duas meias-noites e duas onze horas. Não gosto de atrasar o relógio assim que chega a zero hora. Prefiro protelar esse ato para o outro dia, no caso, para esta manhã. Neste domingo acordei cedo, por volta de nove horas. Logo me lembrei de que devia atrasar o relógio de pulso e o despertador, o algoz das manhãs de labuta. Tem também um certo prazer em verificar que algum relógio da casa ainda não foi modificado e o conforto de mudá-lo pensando: “Ganho mais uma hora agora”. O marcador do tempo no meu computador marca agora dez e vinte e sete. Pronto, são nove e vinte e sete, decretamos nós, senhores do tempo.

Senhores do tempo? Machado de Assis disse: “Nós matamos o tempo, mas ele enterra-nos”. Já Mário Quintana atordoa a todos: “O tempo é um ponto de vista dos relógios”, indicando a relação ambígua e relativa entre o objeto criado pela mão humana e algo insondável e traiçoeiro que nos escapa. Muitos poetas, prosadores, ensaístas, filósofos e pensadores também escreveram sobre esse tema, alguns até prepararam obras inteiras ou utilizaram-no como pano de fundo para motejar sobre nossa existência ínfima, como é o caso de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar.

Teria eu algo a acrescentar às belas palavras desses etéreos seres? Palavras não teria, mas com certeza uma ação, como procurar algum relógio atrasado e perdido em casa, ansioso para ser ajustado.

Identidade

February 10, 2008
id


Dias atrás fui ao Instituto de Identificação de Londrina dar entrada na carteira de identidade do Paraná. Estranhamente, se você um dia for contratado para trabalhar para este estado, não poderá apresentar RG de outra localidade. Para prevenir, resolvi me cadastrar logo e evitar prováveis complicações.

Tentei ser espertalhão e fui na quarta-feira de cinzas enfrentar uma fila menor, que não estava tão menor assim. Normalmente eles distribuem quarenta senhas diárias, a fila começa a se formar às três da manhã e o serviço começa às oito. Nesse dia seriam trinta senhas e ao meio-dia os trabalhos se iniciariam. Cheguei às nove e meia e já tinha gente esperando.

Fui prevenido. Levei o jornal do dia e um livro. Após ler o jornal, saquei o ótimo Os enigmas da culpa, do Moacyr Scliar, pequeno volume da série “Coleção Filosófica” da editora Objetiva. Nele, o escritor gaúcho esmiúça o tema da culpa. Parte da condição judaica para ampliar sua visão e falar dos vários sentidos desse sentimento/sensação/emoção: a culpa moral, a culpa no sentido religioso, a culpa iluminada pela razão, a culpa vista pela psicanálise. Também trata da culpa na literatura de ficção, a culpa e a política, além de dar uma vasta bibliografia sobre o tema. Enfim, é um livro interessantíssimo para nosso mundo tão caro a esse estigma. Raduan Nassar, em um de seus poucos livros, disse: “A culpa é um dos motores do mundo”. Um assunto realmente muito profícuo para nossa vida ocidental.

E o tempo passou rápido naquela fila kafkiana. Até tomei um solzinho, abrandado pelo vento leve da manhã. Logo deu meio-dia e as senhas começaram a ser distribuídas. Fiquei com a 18ª.
***


Peguei a senha e fui tratar de almoçar, pois até chegar minha vez iria mais uma hora no mínimo. Comi no delicioso restaurante vegetariano “Tshu Shin Yuen”, na Rua Santa Catarina. Voltei para o Instituto de Identificação.

Fiquei lá esperando o tempo passar. Só quando tocou o sinal da senha 18 e mostrou que era minha vez, lembrei que numa carteira de identidade deve-se constar a assinatura do portador. Frio na barriga. Normalmente escrevo tranqüilamente na presença de outras pessoas, dando aulas, fazendo provas, mas quando é feito diante de uma pessoa que fica em cima de você, vendo você assinar o papel, é diferente.

Tirei a foto na câmera digital, ficou meio de lado, foi tirada outra. A moça colheu todas minhas digitais também com um aparato eletrônico. Tudo é eletrônico! Isso dispensou o tempo e a sujeira no processo de cadastramento.

Quando chegou o momento de assinar foi complicado.

Assina-se hoje com uma caneta extremamente fina em cima de um papel com várias linhas carimbadas, que por sua vez fica em cima de um sensor que envia os códigos para o computador.

Não tenho assinatura, escrevo meu nome por extenso. Na primeira tentativa saiu algo bizarro, próximo à letra de uma criança. Assim foi na segunda, terceira e quarta linhas. A funcionária, já com expressão de enfado, propôs-se a fazer outro carimbo, alertando para o fato de que eu só teria mais quatro chances. Nas quatro finais minha letra ficou horrível, e acabou prevalecendo a última assinatura, um amontoado de letras desconjuntadas. Tudo muito rápido e higiênico.

Minha letra tem personalidade própria. Ela varia muito de forma durante um mesmo dia. Múltiplas personalidades? Não sei muito disso, mas sei que existem estudos a partir da grafia de uma pessoa. Como é o nome do cara que analisa letras e tira conclusões psicológicas e comportamentais a partir delas? Eu seria certamente considerado um ser sem personalidade. Serei?

Saí triste do recinto. Preponderou meu lado fraco, perdedor, vulnerável. Mais uma chance só, moça, e minha letra aparecerá aguerrida, forte e vistosa no monitor!

Mas nós devemos ser algo mais que um número, foto e assinatura em papel plastificado. Tomara que sim.

Ao sair de lá me deparei com o Sebo Capricho da Maranhão com a Mato Grosso e... alegria! Nem quinze minutos lá e encontrei tanta coisa legal: Além do bem e do mal, do Nistezsche (edição da Companhia das Letras), Dois irmãos, do Milton Hatoum, O teatro na estante, do João Roberto Faria, além de um livro da Ática sobre morfossintaxe que ando precisando. O preço de todos eles juntos não pagaria o Nietzsche novo em uma livraria.
***


No entanto, a marca da assinatura mal executada ficou pulsando.

O mais chato é que quando cheguei em casa fui escrever meu nome num papel qualquer e as letras saíram seguras, rápidas, legíveis, como tentei fazer quando foi necessário.

Aí, agora quando tenho um papel perto e uma caneta fico escrevendo meu nome e quase sempre sai da melhor maneira possível. Pena que na carteira de identidade ele permanecerá meio torto por anos e anos.

Os benefícios do Dorflex®

February 05, 2008
Dorflex

Sempre fui fraco pra bebida. Dependendo do dia, uma cerveja já me deixa num estado alucinado. Tiro um pouco de sarro com aquela piada para justificar meus excessos, que estão se tornando cada vez mais raros: “Eu bebo pouco. Mas o pouco que eu bebo me transforma em outra e pessoa e essa outra pessoa bebe pra caramba”.

Já exagerei muito. Várias vezes. Nas esquinas, nos botecos; algumas poucas vezes em boates, em minha casa; na casa dos outros, em festas; em postos de gasolina, em restaurantes; em quase todo lugar. Tive até alguns problemas, o que me fez várias vezes pensar em parar definitivamente de beber pelo remorso inevitável. Mas como disse um bigodudo alemão, “A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez”.

Contudo, a graça foi acabando. As leves e breves ressacas de antes se transformaram em pesadas e longas dores de cabeça, uma horrível sensação de morte e vertigem constantes. Seguramente a idade e o tempo ativo de copo e garrafa contribuíram para os efeitos colaterais acentuados.

Hoje me contento em aprender a beber, controlando para não deslanchar noite adentro com infindáveis cervejas. Antes de chegar à primeira dezena, contada individualmente, prefiro parar para evitar as conseqüências físicas e psicológicas do dia seguinte.

Mas quando aparece algum daqueles sintomas, nada como um Dorflex.

A ação do Dorflex, em mim, é quase que instantânea. Pego como exemplo a última ingestão de um comprimido, há uns cinco dias.

Tinha bebido algumas cervejas no Bar do Jota. Não muitas, e acho que engoli uma pururuca junto para forrar o estômago com gordura suficiente para despistar o efeito nocivo do álcool. Às sete da manhã do outro dia levantei para mijar e senti a cabeça meio pesada, uma leve pontada nos lados. Não houve dúvida: um Dorflex de prontidão e a cabeça entre as mãos ao sentar-me no vaso (sim, mijo sentado na maioria das vezes em minha casa, principalmente quando estou quase dormindo). Ao voltar para o colchão, o efeito do misterioso citrato de orfenadrina já começara a ser sentido, pois esse relaxante muscular é rápido e certeiro, potencializado pela presença maciça da dipirona sódica e da cafeína anidra no comprimidinho branco.

Deitado, é fechar os olhos e sentir a cabeça sendo tratada com luvas de pelica, relaxar as pernas, o tórax, o pescoço, afagar o travesseiro e largar-se num sono merecido. Quando se acorda, ainda dá pra sentir os benefícios do Dorflex sendo encerrados com um leve aceno de “Se precisar de novo, estou aqui na cômoda. Obrigado!”. Obrigado digo eu e minha massa encefálica restabelecidos.

Há centenas de outros paliativos para amainar a caveira quebrada no outro dia depois da noitada. Tylenol, Neosaldina, ASS, Alivium, a lendária Aspirina etc. etc. etc. Eles se dividem, grosso modo, em duas grandes famílias: os com o princípio ativo paracetamol e os com o princípio ativo dipirona. Hoje podemos comprar os genéricos. Entramos na farmácia e gememos: “Um paracetamol, por favor”, ou “Uma dipirona sódica, por obséquio”. Ah, a Aspirina não contém nenhum desses, e sim Ácido Acetilsalicílico. Daí a ardência ocasional no estômago quando algumas pessoas tomam esse medicamento.

Eu sou partidário da dipirona. É aquela fidelidade como a uma marca de cerveja que rejeitamos e asseguramos que, se bebê-la, a dor de cabeça será certeira. Em matéria da loira sou partidário da Antarctica. A genérica e também seu supra-sumo, a Original. Mas isso é um outro papo.

*
Sugestão de leitura: o ótimo conto do escritor e jornalista gaúcho Luís Dill, intitulado "Paracetamol". Disponível em http://www.releituras.com/ldill_menu.asp.